sábado, 12 de setembro de 2015

Neurose Infantil

Na psicanálise, infância e infantil estão relacionados a estruturas conceituais diversas. Enquanto a infância refere-se a um tempo da realidade histórica, o infantil é atemporal e está remetido a conceitos como pulsão, recalque e inconsciente. São impressões esquecidas que deixam os mais profundos traços em nossas mentes, e que são tomados eles mesmos como traumáticos e constituintes, com efeito determinante. Inscrições e traços esquecidos, mas não apagados. Freud enfatiza que não se pode falar de apagamento ou abolição, mas de recalque. O mais importante não é a ordem cronológica dos fatos narrados e sim o modo como este fato ficou gravado em seu psiquismo. Isso determina sua constituição e também o modo de relembrar o passado. Não era apenas aquilo que o paciente recordava que Freud considerava relevante na compreensão dos sintomas, mas também e, sobretudo, a infância que ficou esquecida. O infantil recalcado, muito mais que um relato sobre a infância, foi, desde sempre, o seu verdadeiro interesse. A reconstrução do infantil em análise não tem mais o intuito de preencher as lacunas, mas tornam-se, elas próprias, reveladoras do sujeito. Desse modo, a infância cronológica não pode ser confundida com o infantil reconstruído no discurso do paciente no contexto da relação transferencial. O infantil é como um conceito metapsicológico, pois não se vê, mas se faz presente no diálogo e no modo como o paciente se expõe em análise. O material recalcado surge na fala dos pacientes repleto de deformações e transmutações que possibilitaram com que fossem articulados ao repertório consciente do analisando. É segundo esse mesmo parâmetro que o infantil será reconstituído. Ou seja, não na literalidade das experiências que estiveram em sua origem, mas segundo as regras que possibilitaram sua emergência. A compreensão do infantil é fundamental no trabalho analítico. Quanto mais essa noção é desenvolvida, a análise assume novas facetas, podendo então adentrar pelo campo da hipnose, da associação livre e da sugestão. Durante essas transformações do método psicanalítico, o infantil assume uma posição central. A infância faz parte da história da psicanálise como uma das marcas mais importantes, pois cenas e lembranças referentes aos primeiros anos de vida dos pacientes estão presentes nos escritos freudianos. O que marca a posição psicanalítica em relação à infância são as particularidades em torno deste período da vida humana e na maneira também particular com que os psicanalistas ouvem seus pacientes contarem seus primeiros anos de vida. Além disso, a reconstrução do infantil, tem um caráter regressivo. Assim como no sonho, podemos entender que a reconstrução do infantil nos remete a algo "que é mais antigo no tempo e mais primitivo na forma e na topografia psíquica, ou seja, que está mais perto da extremidade perceptiva. Assim, o infantil, além de seu caráter determinante na constituição psíquica, é, também, o mais antigo, o mais precoce. Tanto no sentido daquilo que é mais remoto, quanto no sentido daquilo que está em conexão com modos arcaicos do funcionamento psíquico. O modo como Freud compreendeu a importância da infância na constituição psíquica é fundamental na psicanálise. Freud, realiza uma mudança na compreensão teórica do modo como os primeiros anos de vida participam do processo de constituição da realidade psíquica : A fantasia é reposicionada na metapsicologia e assume um lugar de destaque na compreensão e na reconstrução do infantil em análise. A partir de então, a consideração da fantasia enquanto verdade psíquica confere ao infantil um estatuto que se estende para além daquilo que foi visto, ouvido ou vivido na infância. Os sons, os cheiros, as sensações táteis compõem as marcas mnêmicas primordiais e estende-se para além delas. Em "A interpretação dos sonhos", Freud consolida a sua compreensão sobre o lugar da infância na constituição do psiquismo. Mas, muito anteriormente, nos chamados escritos pré-psicanalíticos, Freud já havia lançado e estabelecido as marcas constituintes da noção do infantil. Na correspondência que estabelece com Fliess, a noção do infantil foi problematizada e adquiriu configurações e especificidades que se estendem ao longo de toda a obra freudiana. As bases lançadas por Freud nesse período subsidiaram e estiveram presentes em suas elaborações teóricas posteriores. Freud começa pelos acontecimentos da infância e sua importância na constituição dos sintomas da histeria. Persegue cada fato da infância de seus pacientes na busca da experiência cuja lembrança ficou recalcada e que, em sua efetividade, tornou-se traumática e originou os sintomas. Nesse momento, ele ainda perseguia o resgate dessas experiências e o reflexo disso, na prática, consistia na busca de lembranças fidedignas das experiências esquecidas. De certo modo, buscava o resgate mnêmico o mais próximo possível da experiência vivida. Embora aqui, ainda apareça uma suposição de que existe uma infância a ser completamente resgatada, não podemos deixar de considerar que o interesse pelo recalcado já aponta para a suposição de que a busca não é apenas do fato vivido, mas também do fato não rememorado. Esse modo de aproximação que Freud faz da infância, o afasta de uma reconstituição puramente factual e o aproxima de uma reconstrução feita pelo próprio paciente em seu relato. Mesmo que, no final do século XIX, o interesse pela infância não fosse exclusividade do pensamento freudiano, o modo de pensar e considerar a infância estabelece propriedades específicas ao pensamento psicanalítico. Concluímos, portanto, que, no período que antecede a publicação de "A interpretação dos sonhos" (1900/1980) e de "Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade" (1905/1980), Freud já havia lançado os pressupostos teóricos que sustentam o conceito do infantil. Mais que isso, nesse período, de 1892 a 1899, Freud já associou, o infantil à sexualidade, à pulsão, ao recalque, à fantasia e ao determinismo psíquico das inscrições indeléveis que seriam a base e o fundamento do psiquismo. Em Os três ensaios, Freud (1905/1980) fala do esquecimento do infantil localizando a pré-história do sujeito nos primeiros anos da infância. Tratando da amnésia do infantil em Os três ensaios, Freud reafirma o paradoxo: o infantil remete a um período que é, ao mesmo tempo, esquecido e determinante. Nessa obra, o infantil inscreve-se definitivamente em associação ao desenvolvimento pulsional. No percurso freudiano da constituição do infantil, podemos situar “Os Três Ensaios” como o momento em que a fantasia em relação à sedução encontra o seu suporte nas vicissitudes da pulsão e onde o infantil aparece associado à sexualidade perverso-polimorfa e às fases do desenvolvimento pulsional, em que os modos mais arcaicos do desenvolvimento permanecem presentes, também, na sexualidade do adulto. Assim, o adulto portará para sempre o infantil que o constituiu. As pulsões parciais serão submetidas à ação do recalque e do processo secundário, mas nunca abandonarão seus intentos de retorno ao prazer primordial, agora elaborado teoricamente como fantasia de desejo. Em 1905, Freud tentou, pela primeira vez, aplicar este análise à cura de uma neurose infantil: tratava-se de uma zoofobia de um menino de cinco anos (o ‘Pequeno Hans’). No trabalho "Análise de uma fobia em um menino de cinco anos", Freud vai à procura do infantil na observação de crianças e na análise de um menino de cinco anos. No entanto, ele logo percebe que não é a infância em si que ali se apresenta, mas um mundo de desejos, fantasias, lembranças e recordações que, mesmo em uma criança, se davam a posteriori. Após a publicação de “O caso Hans”, Freud volta a discutir a natureza das recordações referentes aos primeiros anos de vida em trabalhos como "Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância" e em "Uma recordação de infância de Dichtung und Wahrheit", quando realiza a análise de uma recordação de infância de Goethe. Nesses trabalhos, Freud conclui que as recordações que aparecem nesses casos referem-se, muito provavelmente, a uma fantasia que, por sua vez, originou-se em algo de um passado muito remoto e irrememorável. Assim, o que Freud sublinha nesses escritos é o caráter inacessível, porém determinante, das mais remotas experiências da vida, bem como, o atravessamento da fantasia em sua reconstrução posterior. A maior dificuldade encontrada ao aplicar a técnica de Freud às crianças foi a impossibilidade de conseguir delas as associações verbais. Faltava então o instrumento fundamental da análise de adultos. Dessa forma, os diferentes modos de adaptar o método analítico à mente das crianças deram origem às técnicas da psicanálise infantil. Sophie Morgenstern, na França, e Anna Freud e Melanie Klein, em Viena, publicaram os primeiros livros sobre o tema. Melanie Klein contra argumenta Freud em seu artigo: Princípios Psicológicos da Análise de Crianças Pequenas (1926). Ela diz que ao se abordar uma criança com técnicas apropriadas para adultos, certamente não será possível penetrar nas camadas mais profundas de sua vida mental. Porém, se forem utilizadas técnicas apropriadas e se forem levadas em conta as diferenças psicológicas entre crianças e adultos, tal como o fato de que na criança encontramos o inconsciente em ação lado a lado com o consciente, todos esses pontos duvidosos e desfavoráveis deixam de existir. Desse modo, temos que se pode esperar a mesma profundidade e abrangência na análise de crianças do que na de adultos. Há ainda um ponto favorável à análise de crianças: “nela podemos chegar a experiências e fixações que no caso dos adultos só podem ser reconstituídas, enquanto nas crianças elas são representadas diretamente.” “Assim como o meio de expressão das crianças não é o mesmo que o dos adultos, a situação analítica na análise de crianças também parece completamente diferente. No entanto, em ambos os casos ela é essencialmente a mesma, caracterizando-se por interpretações consistentes, solução gradual de resistências e rastreamento persistente da transferência até as situações mais iniciais. Trata-se de técnicas diferentes, e não de novos princípios de tratamento. O método do brincar mantem, para Klein, todos os princípios da psicanálise e leva aos mesmos resultados da técnica tradicional. A diferença é que ele emprega recursos técnicos adaptados à mente da criança. “O Brincar, por suas características, cura a criança e o homem. Independente das interpretações que o analista pode fazer frente ao jogo, ele por si mesmo promove a transformação e a cura” (Winnicott, 1975). Winnicott, por sua vez, se colocava mais preocupado não tanto com o que pudesse estar simbolizado no jogo, mas sim com o impedimento do jogo. “No momento em que o jogar se estanca, há o adoecimento”. Isso, pois o jogo constitui os modos de ser, os mundos possíveis, o sonho do futuro, a sustentação do devir humano, ele é em si mesmo terapêutico. Porém, vale ressaltar que, em alguns momentos, o fato de uma criança não brincar pode não ter o caráter de uma inibição. Ela pode estar simplesmente experimentando o vazio. Isso vale para crianças que foram excessivamente formatadas e submetidas ao seu meio ambiente ou, ainda, para crianças que foram excessivamente sufocadas pela expectativa dos pais. Porém, essa discriminação só é possível observando os modos de ser da criança e conhecendo sua história. É na "História de uma neurose infantil" que Freud entende o infantil como sendo o que se reconstrói em análise das cenas e das fantasias da infância do paciente. Ao analisar uma neurose infantil "quinze anos depois de haver terminado", Freud aponta o caráter atemporal do infantil. Desse modo, sublinha um infantil que não se "desfaz" no adulto, mas que permanece determinando aquilo que o mesmo reconstrói no trabalho de análise. É o infantil em seu caráter singular e próprio ao percurso de cada analisando. Vale ressaltar que o sucesso terapêutico obtido por Freud ao analisar a criança, através do relato de seu pai, permitiu alentar a esperança de aplicar o método analítico aos transtornos e enfermidades de crianças de pouca idade. Em muitos momentos da leitura de O caso do homem dos lobos, Freud nos passa a impressão de que busca um enlace entre a fantasia e a experiência e, de algum modo, uma busca de conciliação, entre a reconstrução histórica e a reconstrução fantasiada. Assim, se, por um lado, entende as fantasias como as lendas que "camuflam" um passado recalcado, por outro, aponta que a "sedução pela irmã (em O caso do homem dos lobos) não foi certamente uma fantasia". Estamos lidando apenas com uma fantasia, que nasceu talvez da observação de relações sexuais de animais". Assim, em O caso do homem dos lobos, a experiência como acontecimento da infância permanece na teoria freudiana através da manutenção da cena com os animais na constituição da fantasia da cena da relação sexual dos pais. Nessa direção, podemos pensar que em O caso do homem dos lobos, o infantil equivale àquilo que é traumático e que permaneceu inconsciente gerando sintomas, sonhos, etc. Mais que isso, Freud atribuirá tal importância ao fator infantil que, afirmará ele, por si só, é suficiente para produzir uma neurose. Por fim, ressaltamos que não há relação de complementação entre a infância e o infantil. O infantil é a parte “inconsciente" daquilo que permanece consciente sobre a infância que se viveu um dia. É no contexto da escuta do paciente, que Freud vai, progressivamente, conferindo um lugar determinante à infância e constituindo os contornos do infantil. Tanto a infância vivida como o infantil estão transfigurados pelo recalque que os fragmentou. Pensar o infantil fora do contexto da metapsicologia ou do trabalho da psicanálise torna-o um conceito estéril e volátil, pois é apenas nos meandros da relação transferencial que o infantil poderá ser parcialmente alcançado e teoricamente constituído. Referências Bibliográficas Freud, S. (1980). A interpretação dos sonhos. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de S. Freud (Jayme Salomão, trad.). (vols. 4, 5). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1900). Freud, S. (1980). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de S. Freud (Jayme Salomão, trad.). (Vol. 7, pp. 121-252). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1905). Freud, S. (1980). Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de S. Freud (Jayme Salomão, trad.). (Vol. 10, pp. 11-154). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1909). Freud, S. (1980). Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de S. Freud (Jayme Salomão, trad.). (Vol.11, pp. 59-126). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1910). Freud, S. (1980). Uma recordação de infância de Dichtung und Wahrheit. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de S. Freud (Jayme Salomão, trad.). (Vol 17, pp. 185-200). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1917). Freud, S. (1980). História de uma neurose infantil. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de S. Freud (Jayme Salomão, trad.). (Vol. 17, pp. 19-151). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1918[1914]). Freud, S. (1980). Notas sobre o Bloco Mágico. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas completas de S. Freud. (Jayme Salomão, trad.). (Vol. 19, p. 285-294). Rio de Janeiro: Imago. (Texto original publicado em 1925 [1924]). Klein, M. (1996a). Princípios psicológicos da análise de crianças pequenas. In M. Klein, Amor, culpa e reparação e outros trabalhos. (A. Cardoso, trad., pp. 152-163). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1926) Winnicott, D.W. O brincar e a realidade. Imago, 1975.

HISTÓRIA DA PSICANÁLISE

Sigmund Freud, o Pai da Psicanálise, no fim do século XIX, precisou achar um modo científico de apreensão da realidade psíquica, face aos mistérios da mente humana, reduzidos na época a metáforas e analogias físicas, materiais, anatômicas e fisiológicas. Isto lhe valeu críticas e ataques por parte da comunidade científica da época. É bom lembrar que o pensamento filosófico estava sob o império do Iluminismo, do Idealismo e já se apontava para seu contraponto – o movimento romântico. A psicanálise possui seu próprio conhecimento científico, ou seja, compreendê-la envolve questões epistemológicas e relações com outras áreas do saber, além de sua contextualização na história. Daí a importância do estudo da história da psicanálise. A psicanálise é conhecida como uma área do conhecimento independente da psicologia, que surgiu como método alternativo para dar conta do sofrimento psíquico e entender a mente como um todo. Suas noções e hipóteses teóricas são organizadas de maneira a constituir modelos para a compreensão de fenômenos psíquicos que fazem parte de casos clínicos e da vida cotidiana. O que marcou o início dos estudos que levaram ao desenvolvimento da Psicanálise foi o momento em que Freud iniciou seus questionamentos acerca da histeria, como algo que vai além de causas orgânicas. Contribuiu para a formação de um método de investigação da psique, uma técnica de tratamento e uma teoria do inconsciente e do psíquico. Como médico, Freud interessou-se por fisiologia e anatomia cerebral e fazia pesquisas em laboratório. Ocorre que as pesquisas não lhe proporcionava oportunidades de trabalho que garantissem seu sustento, e por isso, Freud abandonou o laboratório e ingressou no hospital geral. Neste contexto, o jovem médico observou os primeiros casos de histeria, muito comuns nesta epóca. Como clínico, Freud tratava essencialmente de mulheres da burguesia vienense, qualificadas como “doentes dos nervos” e sofrendo de distúrbios histéricos. Procurou, antes de tudo, curar e tratar de suas pacientes, aliviando os seus sofrimentos psíquicos. Por um ano, utilizou os métodos terapêuticos aceitos na época: massagens, hidroterapia, eletroterapia. Mas logo constatou que esses tratamentos não tinham nenhum efeito. Foi quando começou a utilizar a hipnose, inspirando-se nos métodos de sugestão de Hippolyte Bernheim. Após esse primeiro contato com os casos de histeria, Freud começou a pesquisar esse transtorno focalizando aspectos para além do biológico. Obteve ajuda de Josef Breuer (médico neurologista austríaco), e através de relatos do próprio Breuer, Freud teve acesso ao caso de uma paciente histérica (Ana O). Utilizavam a hipnose para fazer com que a paciente lembrasse de experiências traumáticas, porém não havia muita eficácia, uma vez que posteriormente o sintoma retornava. Breuer, foi antecessor de Freud nos mistérios da Histeria e chega à ousadia de viver na experiência com Ana O, primeira paciente da psicanálise, a intimidade da relação analítica, definida mais tarde como o campo da transferência-contransferência. Breuer sucumbe e transfere o encargo para Freud, que começa seu caminho para apreender a alma humana, aquilo que residia e reside aquém do palpável, do sensório, a área do Inconsciente. Foi aí que Freud sugeriu a Breuer o uso do método catártico, pois este possibilitava ao paciente lembrar da “carga” em que estivera preso para liberá-la em seguida, através da emoção, buscando assim a cura dos sintomas. Descobre na experiência com o método catártico a possibilidade de expurgar os nossos “vômitos” psíquicos e “lixos” mentais para aliviar a dor mental. Complementa este método com outro – a hipnose. O objetivo é a fala, a comunicação verbal e o descobrimento do trauma, que se estende e fica apontado para traumas sexuais e reais. Charcot ministrava aulas sobre Histeria em Paris. Lá, Freud frequentava também o Instituto de Medicina Legal para ver os vestígios e causas reais, traumáticas, anatopatológicas daquela enfermidade. Em suas pesquisas, Freud começa a analisar que a Hipnose já não lhe satisfazia nem ajudava a seus analisandos, pois a força da resistência, daquilo que ele mais tarde chamou de Recalque, não obedece às ordens do Hipnotizador. Foi quando resolveu ir adiante e pediu ao seu analisando que falasse tudo que lhe viesse à mente, sem censura, sem subterfúgio. Após muitos estudos em parceria com Breuer, Freud publicou em 1895 os “Estudos sobre a histeria” introduzindo a teoria da sedução e do trauma. Desta forma, trabalhando nessa parceria com Breuer, Freud abandonou progressivamente a hipnose pela catarse, inventou o método da associação livre e, enfim, a psico-análise. Essa palavra foi empregada pela primeira vez em 1896 e sua invenção foi atribuída a Breuer.” Foi quando de fato nasceu a idéia de Associação Livre. E em contraponto a isso, surge a idéia da Atenção Flutuante, do lado do Analista, uma escuta num estado onírico onde se faz necessário, uma disciplina para escutar, exercitando a atitude de cuidar da memória, desejo e necessidade de compreender. Os outros elementos da psicanálise vão ser a Tranferência, Contratransferência e a Interpretação. Já no âmbito de sua amizade com Wilhelm Fliess (médico alemão), ocorreram vários acontecimentos importantes na vida de Freud: sua autoanálise, um intercâmbio de caso (Emma Eckestein), a publicação do já citado primeiro grande livro, “Estudos sobre a histeria”, no qual são relatadas várias histórias de mulheres e, enfim, o abandono da teoria da sedução segundo a qual toda neurose se explicaria por um trauma real. Essa renúncia, fundamental para a história da psicanálise, ocorreu em 21 de setembro de 1897. Freud comunicou-a a Fliess em tom enfático, em uma carta que se tornaria célebre: “não acredito mais na minha Neurótica.” Passou então a utilizar no lugar da hipnose, a associação livre, com a qual pedia para a paciente falar livremente tudo que lhe viesse à cabeça, sem censura. Substituiu ainda, a teoria do trauma pela teoria da fantasia segundo a qual os elementos relatados na construção da história de cada paciente não fazem parte da realidade. Começou então a elaborar sua doutrina da fantasia, concebendo em seguida uma nova teoria do sonho e do inconsciente, centrada no recalcamento e no Complexo de Édipo. Foi então que Freud iniciou uma pesquisa que foi além da histeria, investigando a vida sexual dos denominados neuróticos. Ocorre que Freud tinha em mente uma outra origem para a histeria, o que culminaria na transição do método catártico para a psicanálise. Para Freud, havia uma relação direta entre histeria e sexualidade. Como Breuer não concordava com Freud, se afastaram. Passado o período pré-psicanalítico (1877-1896) tem-se início a primeira fase da psicanálise (1896-1906). Nesta, Freud abandona o método catártico de vez e o substituiu pela psicanálise. O ambiente cultural da Áustria, o contexto iluminista pós-Revolução Industrial e a Revolução Francesa, aliada aos conhecimentos psiquiátricos, neurofisiológicos, literários, sociológicos, antropológicos e artísticos da época, contribuíram para que Freud identificasse fenômenos mentais que iam além dos já perceptíveis pela consciência. Freud olhava o cérebro e a mente como fenomenologicamente idênticos e estava preocupado com o modelo neurofisiológico, a hidrostase, a termodinâmica e o conceito darwiniano de evolução da mente. Isso influenciou de forma decisiva o modelo de inconsciente construído por Freud, estabelecendo a centralidade dos conceitos de pulsão (formulação teórica para tentar expressar a transformação de estímulos em elementos psíquicos) e recalque. Decorre daí formulações sobre “investimento”, “representação”, “resistência”, “defesas”, fases do desenvolvimento da libido”, “a teoria inicial sobre ansiedade”, a “transferência” como revivência de uma memória passada, e a “realidade psíquica”. Da nova teoria do inconsciente nasceria um segundo grande livro, publicado em novembro de 1899, “A Interpretação dos Sonhos”. Todas as teorias freudianas resultaram da coragem do Pai da Psicanálise em interpretar seus próprios sonhos e fatos exaustivos elaborados neste seu livro maior. Freud traz uma contribuição que ficaria até os nossos tempos, de apreender que a realidade psíquica é mais do que a realidade externa e que apreendê-la é um trabalho continuo e interminável que ele nos lega. A Psicanálise, portanto, é baseada nos ensinamentos freudianos que o próprio Freud convencionou chamar de Metapsicologia - O Inconsciente, O Recalque, A Teoria das Pulsões, Luto e Melancolia e Sobre o Narcisismo, são textos básicos e considerados a Bíblia de qualquer psicoterapeuta e ou psicanalista. Ampliando sua metapsicologia, Freud escreveu a Segunda Tópica, no qual elabora os conceitos de Id, Ego e Super Ego e, finalmente a teoria última das pulsões – as pulsões de morte e vida. Entre 1901 e 1905, Freud publicou seu primeiro caso clínico (Dora) e três outras obras: “A psicopatologia da vida cotidiana” (1901), “Os chistes e sua relação com o inconsciente” (1905) e “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). Em 1902, em conjunto com outras personalidades da época, fundou a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, primeiro círculo da história do freudismo. Durante os anos que se seguiram, muitas personalidades do mundo vienense se juntaram ao grupo. Durante o primeiro quarto do século, a doutrina freudiana se implantou em vários países: Grã-Bretanha, Hungria, Alemanha, costa leste dos Estados Unidos. Na Suíça produziu-se um acontecimento maior na história do movimento psicanalítico: Eugen Bleuler, médico co-chefe da clínica do hospital Burghölzli de Zurique, começou a aplicar o método psicanalítico ao tratamento das psicoses, inventando ao mesmo tempo a noção de esquizofrenia. A teoria criada por Freud, e seus termos, circulavam até mesmo em conversas coloquiais em Viena, no início do século XX e se difundiu por inúmeras áreas do saber. Freud inaugurou uma nova área do conhecimento, uma nova forma de ver e pensar o mundo: as neuroses, a infância, a sexualidade, os relacionamento humanos, a subjetividade e a sociedade. No dia 3 de março de 1907, Carl Gustav Jung, aluno e assistente de Bleuler, foi a Viena para conhecer Freud. Depois de várias horas de conversa, ficou encantado com esse novo mestre. Seria o primeiro discípulo não-judeu de Freud. Temendo o antissemitismo e que a psicanálise fosse assimilada a uma “ciência judaica”, Freud decidiu “desjudeizá-la”, pondo Jung à frente do movimento. Entre 1909 e 1913, Freud publicou mais duas obras: “Leonardo da Vinci: uma lembrança da sua infância” (1910) e “Totem e Tabu” (1912-1913). Até a Primeira Guerra Mundial a figura de Freud centralizava a situação. Mas aos poucos ocorreu a formação de tradições psicanalíticas locais. Jung e Freud romperam todas as suas relações. Não suportando desvios em relação à sua doutrina, Freud publicou, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, um verdadeiro panfleto, “A história do movimento psicanalítico”, no qual denunciou as traições de Jung e Adler. Depois, criou um Comitê Secreto, composto de seus melhores defensores, que até usavam um anel de fidelidade. Apoiados por Jones, os berlinenses (Abraham e Eitingon) preconizavam a ortodoxia institucional, enquanto os austro-húngaros (Rank e Ferenczi) se interessavam mais pelas inovações técnicas. Uma nova dissidência marcou ainda a história desse primeiro freudismo: a de Wilhelm Reich. É importante citar que Freud, por sua doutrina e por sua condição de terapeuta, desempenhou um papel na emancipação feminina. Nos anos 1920, Freud publicou três obras fundamentais, através das quais definiu sua segunda tópica e remanejou inteiramente sua teoria do inconsciente e do dualismo pulsional: “Mais-além do princípio de prazer” (1920), “Psicologia das massas e análise do eu” (1921), “O eu e o isso” (1923). Esse movimento de reformulação conceitual já havia começado em 1914, quando foi publicado um artigo dedicado à questão do narcisismo. Confirmou-se, em 1915, com a elaboração de uma metapsicologia e a publicação de um ensaio sobre a guerra e a morte, no qual Freud sublinhava a necessidade para o sujeito de “organizar-se em vista da morte, a fim de melhor suportar a vida”. Dessa reformulação, centrada na dialética da vida e da morte e em uma acentuação da oposição entre o eu e o isso, nasceriam as diferentes correntes do freudismo moderno: Kleinismo, Ego Psycholog, Self Psychology, lacanismo, annafreudismo, Independentes. Em fevereiro de 1923, Freud descobriu, do lado direito de seu palato, um pequeno tumor, que devia ser logo extirpado. Em um primeiro tempo, Felix Deutsch, seu médico, lhe ocultou a natureza maligna desse tumor. Freud se indispôs com ele. Seis meses depois, Hans Pichler, cirurgião vienense, procedeu a uma intervenção radical: a ablação dos maxilares e da parte direita do palato. Freud se submeteu a trinta e uma operações , todas sob a supervisão de Max Schur. Freud foi obrigado a suportar uma prótese, que ele chamava de “monstro”. “Com seu palato artificial”, escreveu Stefan Zweig, “ele tinha visivelmente dificuldade para falar. Mas não abandonava seus interlocutores, pois tinha o objetivo de provar a todos a sua força de vontade, que era muito maior do que seu “mal”. Em 1926, processou Theodor Reik, e em seguida defendeu com fervor os psicanalistas não médicos, publicando “A questão da análise leiga”. No ano seguinte, publicou com Oskar Pfister, seu amigo, “O futuro de uma ilusão”, obra na qual comparava a religião a uma neurose. Essa obra causou uma polêmica inigualável. Em março de 1938, no momento da invasão da Àustria pelas tropas alemãs, decidiram-se pela recusa a política de criar em Viena um instituto “arianizado” como o de Göring, em Berlim. Decidiram-se também por dissolver a Wiener Psychoanalytiche Vereinigung e transporta-la “para onde Freud fosse morar”. Graças à intervenção do diplomata americano William Bullitt (1891-1967) e a um resgate pago por Marie Bonaparte, Freud pôde deixar Viena com sua família em 1938, mas no momento de partir, foi obrigado a assinar uma declaração na qual afirmava que nem ele nem seus próximos haviam sido importunados pelos funcionários do Partido Nacional-Socialista. Em Londres instalou-se em uma bela casa em Maresfield Gardes 20, futuro Freud Museum. Ali, redigiu sua última obra, “Moisés e o monoteísmo”. Nunca saberia do destino dado pelos nazistas às suas quatro irmãs, exterminadas em campos de concentração. Em 23 de setembro de 1939, às três horas da manhã, em Londres, depois de dois dias de coma, Freud faleceu aos 83 anos de idade. Em virtude dos fatos mencionados percebemos que é necessário frisar que todas as teorias freudianas resultaram da sua coragem em interpretar seus próprios sonhos e fatos exaustivos elaborados em seu livro maior – a Interpretação dos Sonhos. Como se vê, Freud traz dessa maneira uma contribuição que ficaria até os nossos tempos e acredito interminável, de apreender que a realidade psíquica é mais do que a realidade externa. Levando em consideração estes aspectos, conclui-se que a Psicanálise é baseada nos ensinamentos freudianos que o próprio Freud convencionou chamar de metapsicologia, e, ampliando essas teorias, escreveu os conceitos de Id, Ego e Super Ego e, finalmente a teoria última das pulsões – as pulsões de morte e vida. Eis um resumo da História da Psicanálise, que conta com mais de cem anos de efetivo método de trabalho até a atualidade. Bibliografia: Freud, Sigmund. Uma breve descrição da psicanálise (1924 ) in: Freud, Sigmund. O ego e o Id e outros trabalhos, (1923-1925) in Obras completas de Sigmund Freud (23 v.), V.19. RJ, Imago, 1996. Gay, Peter. Freud - Uma Vida para o Nosso Tempo. (1923) Biografia traduzida por Denise Bottmann. Editora Companhia das Letras, 2012.

CULPA E REJEIÇÃO

Este tema tem como objetivo investigar a trajetória teórica da noção de sentimento de culpa na obra freudiana. Há uma dualidade culpa universal/culpa individual e a qualidade inconsciente atribuída à culpa. Diante desta constatação, estudaremos a universalidade do sentimento de culpa – que aparece constantemente em formas de religiosidade – e discorreremos acerca da cobrança específica que o Superego faz ao Eu. A qualidade inconsciente da culpa aparece inúmeras vezes, culminando na discussão acerca de como é possível ser inconsciente o que é sentimento. O interesse de Freud pelo sentimento de culpa não surgiu claramente, pelo contrário, fica nítido que Freud constatou a importância do mesmo em diversos momentos e situações, mas não se preocupou em dedicar um estudo aprofundado e específico sobre a culpa. Isso ocorreu porque ele focava seu estudo nas neuroses e no inconsciente. Quando se deparou sobre questões sobre sentimento de culpa, essas questões perpassaram por toda a teoria psicanalítica, desde os primeiros trabalhos de Freud, quando ele apenas conjecturava acerca dos mecanismos psíquicos sem qualquer pretensão de publicação, pois muitas ideias ainda estavam em desenvolvimento e era difícil colocá-las à prova. Neste período, é possível identificar a culpa a partir de termos relacionados, tais como autocensura e remorso, mas que não são definidos, nem caracterizados na época. Em "Totem e Tabu", Freud faz algumas analogias entre a neurose obsessiva e a religião ao identificar que as proibições obsessivas envolvem renúncias e restrições bastante extensivas, assim como as proibições do tabu e da religião, e percebe que algumas restrições podem ser suspensas se certas ações forem realizadas; assim, tais ações logo se tornam atos compulsivos que se repetirão indefinidamente: elas são da mesma natureza que a expiação, a penitência, a purificação ou até as medidas defensivas. O sentimento moral procede da mesma fonte da qual se originou a religião, porém esse é fruto simultaneamente da exigência da sociedade e da penitência que o sentimento de culpa estabelece. Após "Totem e Tabu", a questão da culpa coletiva ou individual aparecerá em 1914 no texto "Sobre o Narcisismo – uma Introdução", quando Freud fala sobre o ideal do eu e a instância resultante, o supereu. Com o conceito de narcisismo Freud avançou bastante na compreensão do sentimento de culpa, pois a construção de uma noção de ideal do eu e, posteriormente, de supereu, exemplifica a exigência da qual se deriva a culpa no sujeito. Laplanche e Pontalis apontam o ideal do eu como uma formação intrapsíquica relativamente autônoma que serve de referência ao eu para apreciar suas relações afetivas e afirmam que "sua origem é principalmente narcísica". Freud afirma que o ideal do eu revela um importante cenário para a compreensão da psicologia de grupo, pois além de seu aspecto individual, esse ideal apresenta um aspecto social, que constitui o ideal comum de uma família, uma classe ou uma nação. Para Freud, o ideal vincula não somente a libido narcisista da pessoa, mas também uma quantidade considerável de sua libido homossexual,5 que retorna ao eu. É através dessa compreensão que Freud apreende o sentimento de culpa em sua esfera social: "A falta de satisfação que brota da não realização de um ideal libera a libido homossexual, sendo esta transformada em sentimento de culpa (ansiedade social)". Sabe-se que originalmente, na vida psíquica, o sentimento de culpa era produto do temor da punição pelos pais, isto é, a expressão do medo de perder o amor dos pais; mais tarde os pais são substituídos por um número indefinido de pessoas na comunidade, o que leva à "ansiedade social", que, apesar de se apresentar enquanto culpa individual, nasce graças à vivência coletiva. Em 1915, Freud descreve o sentimento de culpa e o relaciona à atitude adotada diante da morte; em "Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte" ele fala que a história primitiva da humanidade está repleta de assassinatos e aponta que o obscuro sentimento de culpa ao qual a humanidade tem estado sujeita desde épocas pré-históricas e que, em algumas religiões, foi condensado na doutrina da culpa primeva, do pecado original, é provavelmente o resultado de uma culpa de homicídio em que teria incorrido o homem pré-histórico. No mesmo texto Freud discorre sobre a ambivalência de sentimentos que se apresentava no período de guerra, pois ao mesmo tempo em que o homem podia matar seus inimigos sem o menor escrúpulo, ele realizava rituais de purificação e isolamento para livrar-se da culpa decorrente de seu ato e do medo da vingança do espírito morto. Em 1923, Freud publicou "O Ego e o Id", em que tratava do aparelho psíquico, na qual se apresentam as estruturas do eu, do isso e do superego. A partir disso, Freud analisa a função do eu, que deve conciliar as pressões do isso com os ideais do superego e com a realidade externa. O importante é que o inconsciente passa a ser compreendido em sua dimensão dinâmica, tornando-se a qualidade que perpassa todas as estruturas – isso, eu e supereu. Assim, Freud afirma que, desde o início, atribuiu às tendências morais do eu a função de incentivar o recalque. Ele explica que, se o conteúdo recalcado tiver acesso à consciência, a autocensura ligada a ele irá emergir sem modificações; porém, como o conteúdo emerge de maneira disfarçada (por exemplo: sonhos, atos falhos e chistes), não atrai atenção [consciente] para si, o que aparece é simplesmente um sentimento difuso de culpa sem qualquer conteúdo e, por isso, denominado inconsciente. Ao considerar a dinâmica do inconsciente, Freud aponta que a culpa inconsciente se manifesta também no tratamento analítico e explica certa resistência derivada do eu durante a análise: a reação terapêutica negativa, apresentada no quinto capítulo, intitulado "Estados de dependência do eu", quando elucida importantes aspectos da dinâmica e funcionamento do supereu. Segundo Freud, "o sentimento de culpa que está encontrando sua satisfação na doença se recusa a abandonar a punição do sofrimento". O sentimento de culpa se apresenta nesses casos como uma resistência à cura, bastante difícil de superar. O supereu, que também é, em grande parte, inconsciente, é então apresentado, em suas relações com o ideal do eu, como uma instância autocrítica capaz de julgar e oprimir o eu; Freud pontua a censura moral e afirma que "a tensão entre as exigências da consciência e os desempenhos concretos do eu é experimentada como sentimento inconsciente de culpa". Em 1924, no texto "O problema econômico do masoquismo", Freud volta a essa questão e afirma que a utilização do termo "sentimento inconsciente de culpa" é psicologicamente incorreta, já que sentimentos não podem ser descritos como "inconscientes". Porém, a partir da necessidade de punição, explica que a tensão entre o eu e o supereu refere-se à reação do eu mediante a percepção de que não correspondeu às exigências de seu ideal, ou seja, a tensão sentida como sentimento de culpa refere-se à angústia percebida pelo eu, sendo que esta última é que é inconsciente. Agora é possível compreender que os afetos que são denominados como "inconscientes" foram inibidos em seu desenvolvimento pelo recalque e que, na verdade, o que é inconsciente não é o afeto, mas sim a representação original do mesmo e a carga libidinal ligada àquela. Portanto, falar de "sentimento inconsciente de culpa" significa dizer que o representante psíquico original da culpa foi recalcado. Para compreender e explicar a culpa coletiva, Freud precisou recorrer ao mito científico darwiniano da Horda Primeva em que os filhos teriam se unido para assassinar o Pai primevo. Mas com a morte do pai, ao invés de satisfação e liberdade, os filhos se depararam com o remorso e o temor de uma punição; assim, adotaram um totem (frequentemente um animal) como substituto sagrado do pai, o qual era venerado e inviolável, provocando uma espécie de reconciliação4 que pudesse amenizar a culpa e ajudar a esquecer o crime cometido. Por esse motivo, o totemismo pode ser considerado uma primeira tentativa de religião. A religião totêmica teria surgido do sentimento filial de culpa, num esforço para mitigar esse sentimento e apaziguar o [furor do] pai com a mais cautelosa obediência a ele; para Freud, todas as religiões posteriores são vistas como tentativas de solucionar o mesmo problema. Em 1939, em três ensaios compilados em "Moisés e o monoteísmo", Freud apresenta algumas teses acerca da religião monoteísta. Dentre elas, a tese elaborada sobre o assassinato de Moisés traz um desdobramento importante à compreensão da origem da culpa coletiva, pois acrescenta esse fardo [mais um assassinato] à sua fonte. Freud destaca que aquela culpa ultrapassou os limites grupais: "ela tinha se apoderado de todos os povos do Mediterrâneo, como um vago mal-estar, como uma premonição cataclísmica" (Freud, 1939/1969, p. 131). Todos estes ensaios e estudos de Freud enfatizam a importância da vida afetiva. Neste sentido, ao analisarmos o conceito e a origem do ciúme e da inveja, veremos que são conceitos importantíssimos para compreendermos como funciona o sentimento de culpa e rejeição. Se formos estudar o que é o ciúme patológico, e refletirmos sobre suas repercussões nas relações amorosas, em especial, veremos que existem formas devastadoras de ciúme patológico. A esse respeito, pode-se dizer que o ciúme origina-se nas relações primárias, tanto o normal, quanto o patológico, e que o mais severo é o ciúme patológico, cujas principais causas advêm de problemas emocionais, muitas vezes gerados na infância. Por fim, pode-se verificar que o ciúme é um sintoma, nas relações familiares, até as relações amorosas, e suas formas de intervenções. Contudo, é preciso conhecer mediante estudos e pesquisas o conceito de ciúme, onde se contextualiza a questão, tomando a psicanálise como possibilidade de compreensão das diferentes formas que o mesmo se apresenta ao longo do ciclo vital. Para que se possa compreender tal sentimento e suas implicações na vida afetiva, é necessário ficar atento sobre o ponto de vista das intervenções clínicas, a fim de entender o sujeito que sofre os efeitos negativos do ciúme. Constata-se então a necessidade de novas investigações sobre o ciúme, considerando, a importância de que desde a infância esse afeto seja direcionado como fundamental na constituição subjetiva da criança. É muito importante perceber o sentimento de culpa que o ciúme e a inveja causam, pois geram efeitos devastadores nas relações, um desses efeitos é justamente a rejeição. Tanto um como outro sentimento têm sua origem na infância, na relação com os pais e na fase do complexo de Édipo, “ inveja do pênis”, “desejo pela mãe” e primeiros sinais de inveja e ciúme... inveja do irmãozinho( no caso da menina) e ciúme do pai com a mãe, no caso do filho menino. Diante do exposto, nota-se que o ciúme não deve ser encarado apenas como uma forma de demonstração de amor, nem a inveja como algo absurdo, como é muitas vezes difundido em nossa sociedade. Porém, se ambos sentimentos se apresentarem de forma tirânica e limitadora, até suas expressões, mais naturais, como Freud afirma, não é algo completamente racional; encontra-se enraizado no inconsciente e como já foi dito, ligado ao Complexo de Édipo, presente nas relações fraternais, iniciando-se desde as manifestações da vida emocional, estendendo-se por toda a vida do indivíduo, gerando muitas frustrações, dentre elas, a CULPA e a REJEIÇÃO. Está sendo analisado o modo como a psicanálise entende a relação entre sentimento de culpa e rejeição. Inicialmente, associamos esses sentimentos ruins do ser humano à falta de orientação. Daí se pensa que a busca por essa orientação deve ser o objetivo de quem tenta superar seus mal estares. Ocorre que, Freud, revela que é a forma como a civilização articula-se é que é a fonte de todo o sentimento de culpa, ou seja, o sentimento de culpa pode ser entendido como fruto de uma determinada forma de articulação do problema e a ética da sociedade. O sentimento de culpa em relação às questões éticas também foi estudado pela psicanálise. Freud (1930) define o mal-estar como sendo essencialmente sensação de culpa e o caracteriza como o maior entrave ao projeto civilizatório. O que se delineia sob a análise freudiana do mal-estar é o impasse do sujeito – sua impossível adequação ao ideal de universalidade que lhe é imposto pelo Outro. Esse ideal seria o articulador do sentimento de culpa, na medida em que estabeleceria um determinado critério para a satisfação do sujeito. A fim de evitar confusões quanto ao uso que faremos do termo “ética”, cabe ressaltar que a questão será equiparada ao termo “moral”, pois colocará em evidência uma vertente normalizadora da ética. No texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905) introduz o termo pulsão em sua discussão sobre a problemática da satisfação humana. Este termo é definido como o representante psíquico de uma fonte endossomática e contínua de excitação. Trata-se de uma exigência de trabalho feita ao psiquismo, que tem sua origem no corpo. A pulsão é descrita como um impulso que busca satisfação, contudo sem possuir um direcionamento para atingi-la. Ele define os supostos caminhos para a satisfação pulsional – partindo de uma organização oral da libido até se atingir a genital. Mas paralelamente à postulação de uma unificação das pulsões parciais sob o primado de uma zona genital, Freud depara-se com a característica essencialmente perverso-polimorfa da sexualidade que não consegue reunir em um todo o conjunto das pulsões parciais. Desta forma, fica exposta a parcialidade da satisfação que não encontra sequer um objeto predeterminado para tal. O que se delineia é a perda da orientação natural do homem, inclusive para a satisfação sexual. A análise freudiana da satisfação pulsional coloca em evidência o caráter ético do problema tratado – a conclusão a que se chega ao analisar o movimento pulsional é a de que não há uma tendência, um caminho integralmente legitimado que nos conduza à satisfação. O princípio do prazer tenta fazer as vezes desse caminho, mas falha ao tentar regular toda satisfação do sujeito, já que há sempre um resto pulsional irredutível em toda tentativa de regulação; um resto que só consegue se manifestar além do princípio do prazer. O mito freudiano sobre o assassinato do pai, que descreve o processo de internalização de uma lei externa, expressa o modo como a interdição passa a simbolizar uma perda de satisfação para o sujeito. A interdição na satisfação pulsional pode ser entendida como conseqüência de nossa própria constituição como humanos, de nossa perda da orientação natural ao sermos submetidos ao sistema lingüístico É somente de forma mítica que o sujeito pode significar sua sensação de falta ou perda de satisfação, e é como sentimento de culpa que essa falta se expressa. A análise freudiana desse sentimento revela que ele expressa na verdade não uma falta, mas a presença e até mesmo o excesso de uma satisfação pulsional, que não é, no entanto, reconhecida pelo ego do sujeito como satisfação. Acompanhando as formulações de Freud sobre o sentimento de culpa, desde a primeira definição em 1907, em que esse sentimento é relacionado à satisfação pulsional, até a elaboração do conceito de superego, somos levados a constatar que o sentimento de culpa expressa a presença irrevogável de uma satisfação, ainda que desprazerosa, para o sujeito. O sentimento de culpa é sempre entendido por Freud como decorrente da renúncia à satisfação pulsional. Essa renúncia teria origem no medo da perda do amor do Outro de quem o sujeito é dependente. Freud denomina de superego a instância que exige renúncia. É como expressão de uma desarmonia fundamental no interior do sujeito e em sua relação com o mundo que o termo superego pode ser entendido. Na pulsão de morte veiculada por essa instância, Freud descobre uma radical impossibilidade de harmonia do sujeito com os ideais da civilização. É nesse sentido que ele descreverá o mal-estar expresso sob a forma de sentimento de culpa como intrínseco à civilização. Freud traça o seguinte percurso para a constituição do superego: ele é formado pelo resíduo das primeiras escolhas objetais feitas pelo sujeito e também pode ser caracterizado como uma formação reativa contra essas escolhas, pois estas são incestuosas, e mantê-las poderia acarretar dano ao ego, que se vê obrigado a renunciá-las. Para recalcar essas escolhas, o ego introjeta a força do pai, e essa força introjetada ergue-se como uma instância (o superego), que passa a exercer domínio sobre o próprio ego. O ego respeita e teme essa instância, pois sendo a representante da lei paterna, ela o ameaçou um dia de castração. O sentimento de culpa seria uma forma de manifestação deste medo e expressaria a angústia sentida pelo ego quando não consegue se colocar à altura das exigências superegóicas, e por isto teme ser punido (castrado) por ele, assim como temia ser punido pelo pai. O superego vem desempenhar, portanto, o papel que era próprio à autoridade externa, exigindo renúncia pulsional e punição. A diferença entre o superego e as autoridades externas é que o superego é onisciente em relação aos desejos inconscientes. O resultado é que “uma ameaça de infelicidade externa – perda do amor e castigo por parte da autoridade externa – foi permutada por uma permanente infelicidade interna, pela tensão do sentimento de culpa” A origem do superego, e conseqüentemente do sentimento de culpa, está diretamente vinculada com o tema da ética. O superego surge, na verdade, em decorrência do fracasso do princípio do prazer em eliminar o fator pulsional, cujo aumento gera desprazer ao aparato psíquico. Essa instância seria a última tentativa (após o fracasso do princípio do prazer) de promover um ordenamento dos investimentos pulsionais, exigindo a renúncia pulsional em função de um bem maior, que seria o ideal do ego. Contudo, o sentimento de culpa revela que esta tentativa também fracassa. O fracasso manifesta-se da seguinte maneira: o fator pulsional não é de todo eliminado, há sempre um resíduo nessa operação que torna infinita a exigência de renúncia pulsional, e o sujeito se sente culpado por não estar à altura de responder ao ideal do ego. Freud remete à pulsão de morte o fator pulsional que resiste a ser ordenado pelo princípio do prazer e que se manifesta através do superego. A partir da análise da neurose obsessiva, da histeria, da melancolia e também do masoquismo, Freud conclui que a pulsão de morte pode ser tratada de três modos: 1) ela pode ser tornada inócua por meio da fusão com componentes eróticos; 2) ela pode ser, em parte, desviada para o mundo externo sob a forma de agressividade; ou 3) ela pode continuar seu “trabalho interno de estorvo”, ao se voltar contra o próprio sujeito. É o retorno da agressividade renunciada ao ego o que constitui o superego; a força que põe em funcionamento o superego é derivada da pulsão de morte, que impedida de se manifestar no mundo externo volta sua violência contra o próprio ego É, portanto, a própria renúncia à satisfação, em função primeiramente de uma autoridade externa e posteriormente em função do próprio superego, que gera a sensação de culpa. A conclusão a que Freud chega é de que há uma satisfação com a própria renúncia à satisfação, pois as pulsões renunciadas pelo ego ganham no superego uma forma de alcançar a satisfação por meio de sua severidade e agressividade contra o próprio ego. O que vai sustentar a renúncia pulsional será, portanto, uma satisfação com esta renúncia. Quanto mais se renuncia, mais o superego exige renúncia. A instância que deveria impedir a satisfação acaba se satisfazendo com essa atividade de exigir a renúncia. Quanto mais o sujeito atender a essa exigência, mais culpado ele se sentirá. Nessa satisfação, evidentemente sentida como desprazerosa pelo ego, encontra-se a fonte dos motivos éticos – essa é a conclusão a que Freud chega ao analisar o sentimento de culpa. Referências Bibliográficas: Freud, S. (1969). Atos obsessivos e práticas religiosas. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 9, pp. 109-122). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1907) Freud, S. (1969). Carta 52. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 1, pp. 281-287). Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1969). Carta 72. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 1, pp. 317-318). Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1969). O ego e o id. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 19, pp. 13-80). Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1969). O futuro de uma ilusão. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 21, pp. 154- 209). Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1969). O inconsciente. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 14, pp. 163-210). Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1969). O problema econômico do masoquismo. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 19, pp. 173-188). Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1969). Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Cap. 12: Determinismo, crença no acaso e superstição – alguns pontos de vista. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud. (J. Salomão, trad., Vol. 6, pp. 287-332). Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1969). Totem e tabu – alguns pontos de concordância entre a vida mental dos selvagens e dos neuróticos. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 13, pp. 17- 192). Rio de Janeiro: Imago. Freud, S. (1969). Moisés e o monoteísmo – três ensaios. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 23, pp. 19-161). Rio de Janeiro: Imago. Pesquisas na internet: Fontes: http://psicologado.com/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/o-ciume-na-infancia-como-constitutivo-do-sujeito#ixzz37CySN8He http://www.minhavida.com.br/familia/materias/4844-a-inveja-e-a-culpa-em-relacao-a-maternidade http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S141511382007000100004&script=sci_arttext

Resistência, transferência e contratransferência

A resistência: A resistência, segundo Freud, é considerada uma força psíquica inconsciente que tem a função de eliminar da consciência a idéia dolorosa e ao mesmo tempo impede seu retorno à memória. A resistência é um conceito fundamental para a psicanálise. Encontra-se presente em quase todos os textos freudianos, e atravessa todo o processo de análise. A palavra “resistência” apresenta diversos significados. Numa síntese das definições, podemos dizer que o conceito de resistência na psicanálise é o conjunto das reações de um paciente cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise, é tudo o que, nos atos e palavras do paciente, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente. A resistência representa uma atitude de oposição do paciente às descobertas do analista aos seus desejos inconscientes. Representa tudo aquilo que atrapalha o trabalho terapêutico e funciona como obstáculo a elucidação dos sintomas e a evolução do tratamento. Freud já mencionava a resistência enquanto um obstáculo à hipnose do livro Hipnotismo, onde escreve que "essa influência apenas raramente se efetua sem resistência da parte da pessoa hipnotizada". Ainda nesse artigo, afirma que "sempre que surge uma intensa resistência contra o uso da hipnose, devemos renunciar ao método e esperar até que o paciente, sob a influência de outras informações, aceite a idéia de ser hipnotizado". Assim como a hipnose, Freud também observou que a técnica da pressão podia falhar na tarefa de suscitar as lembranças esquecidas, apesar de toda a insistência empregada junto ao paciente. Quando isso acontecia, Freud percebia que havia encontrado uma oposição para penetrar em uma camada mais profunda da cadeia de representações. Freud pensava que a causa da resistência era a ameaça ao aparecimento de idéias e afetos desagradáveis. Essas idéias tinham sido reprimidas e resistiam à rememoração por serem de natureza dolorosa e capazes de despertar afetos de vergonha, autocensura, dor física. Na segunda fase da Psicanálise a Resistência passou a ser percebida também como contra a apercepção de impulsos inaceitáveis. Assim sendo, era entendida como distorções das lembranças inconscientes, disfarçadas na associação livre. Em relação ao fenômeno clínico da resistência, Freud foi abandonando de vez a sugestão existente nas técnicas da hipnose e da pressão, passando a investir no fluxo de associações livres do paciente, sem constrangimento, sem crítica e guiada pelo acaso. E ao perceber e conceituar teoricamente o fenômeno clínico da resistência, Freud abandonou as técnicas utilizadas até então em sua terapêutica e começou a percorrer um caminho particular, rumo à criação da própria psicanálise. De acordo com Freud, existem cinco tipos de resistências, que provêm de três direções: do ego, do id e do superego: Do ego: “O ego é a fonte de três, cada uma diferindo em sua natureza dinâmica”. São elas: a resistência da repressão, a resistência da transferência – que estabelece uma relação com a situação analítica, reanimando assim uma repressão que deve somente ser relembrada – e a resistência originada do “ganho proveniente da doença” baseada numa “assimilação do sintoma no ego”. Resistência da Repressão: Poderia ser considerada como a manifestação clínica da necessidade do indivíduo de se defender de impulsos, recordações e sentimentos que, se emergissem na consciência, causariam um estado de sofrimento, ou ameaçariam causar tal estado. Resistência da Transferência: Essencialmente semelhante à resistência da repressão, possui a especial qualidade de, ao mesmo tempo que a exprime, também refletir a luta contra impulsos infantis que, sob forma direta ou modificada, emergiram em relação à pessoa do analista. De ganho secundário: Esses ganhos secundários oriundos dos sintomas são bem conhecidos sob a forma de vantagens e gratificações obtidas da condição de estar doente e de ser cuidado ou ser objeto do compadecimento dos outros, ou sob a forma de gratificação de impulsos agressivos vingativos para com aqueles que são obrigados a compartilhar o sofrimento do paciente. Do Id : Resistência que necessita de elaboração. Devido à resistência dos impulsos instintuais a qualquer modificação no seu modo e na sua forma de expressão. Segundo Freud (1926): “E...como os senhores podem imaginar, é provável que haverá dificuldades se um processo instintual, que por décadas inteiras trilhou novo caminho que recém se lhe abriu.” Do Superego: Resistência enraizada no sentimento de culpa do paciente ou na sua necessidade de punição. Freud considerava a “resistência do superego” como sendo a mais difícil de o analista discernir e abordar. Ela reflete a ação de um “sentimento inconsciente de culpa” e é responsável pela reação aparentemente paradoxal do paciente a todo passo que, no trabalho analítico, representa a materialização de um ou outro impulso de que vão se defendendo pressionados pela sua consciência moral. A Transferência e a contratransferência: A transferência é de reimpressões e como novas edições de antigas experiências traumáticas. Dizia, “este amor consiste em novas edições de antigas características e que ele repete reações infantis”. Quando fala do desenvolvimento do individuo, Freud diz que, este se conduzirá por sua vida erótica através de uma ação combinada da sua disposição inata com as vivências de seus primeiros anos de vida. E que “o trabalho analítico visa desvendar a escolha objetal infantil da paciente e as fantasias tecidas ao redor dela”. É inegável que domar a transferência é muito difícil para o psicanalista, mas é justamente essa dificuldade que torna possível a atualização e manifestação das movimentações amorosas, esquecidas e o fenômeno essencial em que se baseia o processo de qualquer terapia analítica. Inicialmente Freud a considerava como uma forma de resistência ao tratamento, uma forma de amor que a paciente desenvolvia pelo médico. Posteriormente a considerou resultante guardadas no inconsciente. Pode-se dizer que no processo psicoterápico há transferência em tudo, mas nem tudo deve ser entendido e trabalhado como sendo transferência. A transferência é uma necessidade de repetição ou repetição de uma necessidade não satisfeita no passado. Neste último caso, ocorre quando se trazem para o processo psicoterapêutico necessidades antigas, primitivas, que serão retomadas na relação com o psicoterapeuta. Essas necessidades podem ser repetidas a partir da preservação do espaço terapêutico, que é a soma de todos os procedimentos que organizam, normatizam e possibilitam o funcionamento grupal. Esse espaço, mantido e preservado, dá ao paciente uma representação de segurança, onde ele poderá experimentar novamente e modificar as vivências anteriores que não foram bem resolvidas. Nas terapias de grupo, às vezes, cargas pulsionais intensas, são dirigidas aos membros do grupo ao invés de ir para o analista. O analista deve dar um significado que possa ser partilhado por todos do grupo e não apenas por quem a proporcionou. O que facilita esse trabalho é que as manifestações transferenciais de um grupo se desenvolvem de acordo com a evolução do próprio grupo. Dependendo do momento do grupo, podem ocorrer as transferências cruzadas (necessidade de amor e dependência/descrença e desesperança) e posteriormente passa a existir uma preocupação entre os membros do grupo. Neste tipo de trabalho, o analista fará com que os membros tenham a capacidade de reconhecer os próprios sentimentos contratransferenciais que os outros lhe despertam. Dessa forma, será possível diferenciar o que é seu, o que é do outro e também o que cada um desperta no outro. O analista é uma mera figura transferencial modelada pelas identificações projetivas dos pacientes, por isso, serão as atitudes do analista que desencadearão a resposta transferencial do paciente. A partir da imagem do terapeuta, é preciso pensar nos sentimentos deste em relação ao paciente, ou seja, a contratransferência. No início, Freud considerava a contratransferência como algo prejudicial, que indicava que o terapeuta não estava bem analisado. Esta idéia foi mudando e passou a ser entendida como sendo sentimentos do mundo interno do paciente que são sentidos pelo terapeuta e também como uma forma de comunicação primitiva de sentimentos que o paciente não consegue reconhecer e nem verbalizar. A contratransferência refere-se às emoções que se manifestam no terapeuta diante do grupo, que podem ou não ser percebidas por ele. Segundo Freud: “Todos possuem no seu próprio inconsciente, um instrumento com que podem interpretar as expressões inconscientes do outro”. Percebe-se então, que o terapeuta pode guiar-se por sua contratransferência, e essa atitude indica uma comunicação de inconsciente para inconsciente. Essa interpretação é empírica. As ações devem ser guiadas pelo afeto , e este afeto deve ser experimentado a partir da autenticidade do sentir. A identificação projetiva em que o grupo ou um membro deste grupo atribui ao analista características que imaginam ser dele, é preciso pensar no analista em relação a estas projeções. Neste ponto, pode ocorrer certa confusão. A contratransferência e a identificação projetiva podem se confundir e será necessário uma diferenciação entre elas, pois como saber se o que o terapeuta sente é uma emoção projetada ou uma emoção contratransferencial? A identificação projetiva pode ser percebida quando no trabalho há um mal-estar, uma sensação de desconforto, uma sensação de experienciar sentimentos intensos, um peso, muitas vezes quase impossível de suportar. O analista tem uma perda temporária de insight e inicialmente tem dificuldades para perceber a projeção. Outro fator a ser considerado é que a identificação projetiva é tida como uma função da inveja, e que o ingresso forçado em outra pessoa destrói suas melhores qualidades. Tudo o que foi dito reforça o fato de que a psicoterapia analítica se dá através do vínculo, onde se revivem antigas e se criam novas situações, onde sentimentos e afetos são vividos intensamente. BIBLIOGRAFIA: DINIS, V. C. O conflito na transferência: desejo e violência. Revista ABPAG, v. 3, p. 39-47, 1996. FREUD, S. (1912). A dinâmica da transferência. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago. 1987. p. 133-143. FREUD, S. (1915). Observações sobre o amor transferencial. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago. 1987. p. 207-221.

LUTO E MELANCOLIA

“Luto deve ser algo que todos temos em comum, mas parece diferente em todos. Não é só pela morte que temos que sofrer. É pela vida. Pelas perdas. Pelas mudanças. E quando imaginamos porque algumas vezes é tão ruim, porque dói tanto... temos que nos lembrar que pode mudar instantaneamente. Quando dói tanto que não se pode respirar, é assim que você sobrevive. Lembrando-se que um dia, de alguma forma, impossivelmente, não se sentirá mais assim. Não vai doer tanto. O luto vem em seu próprio tempo para todos. À sua própria maneira. O melhor que podemos fazer, o melhor que qualquer um pode fazer, é tentar ser honesto. A parte ruim, a pior parte do luto, é que não se pode controlá-lo. O melhor que podemos fazer é tentar nos permitir senti-lo, quando ele vem. E deixar pra lá quando podemos. A pior parte é que no momento em que você acha que superou, começa tudo de novo. E sempre, toda vez, ele tira o seu fôlego. Há cinco estágios de luto. São diferentes em todos nós, mas sempre há cinco. Negação. Raiva. Barganha. Depressão. Aceitação.” (Grey's Anatomy) A correlação colocada por Freud entre luto e melancolia em seus estudos justifica-se pela semelhança no quadro geral dessas duas manifestações. O luto caracteriza-se pela reação normal relativa à perda de um ente querido e a melancolia, hoje nomeada como depressão, é um diagnóstico de grande incidência na população mundial. A seguir segue breve apanhado desses estudos de Freud, relacionando-o com outros estudos na área. O luto, de maneira geral, manifesta-se como estado de reação a perda de algo amado e não implica condição patológica desde que seja superado após certo período de tempo. Suas características assimilam-se muito as da melancolia que possui como traços marcantes desânimo profundo e penoso, cessação de interesse pelo mundo externo e inibição de toda e qualquer atividade. A característica de maior peso na diferenciação dos dois estados é presença de baixa auto-estima e auto-recriminação muitos comuns na Melancolia e inexistentes no luto normal. No luto profundo existe a perda de interesse pelo mundo externo a não ser que se trate de circunstâncias ligadas ao objeto perdido. Há a dificuldade de adotar um novo objeto de amor. A inexistência do objeto exige grande esforço para redirecionamento da libido. A oposição a esse redirecionamento da libido pode acontecer de maneira tão intensa que dá lugar a um desvio de realidade (psicose alucinatória), entretanto, essa manifestação não ocorre no luto normal. Com relação ao luto normal é importante salientar que a perda do ente amoroso não constitui presença de auto-recriminação, mas, em pessoas nas quais existe pré-disposição para neurose obsessiva pode haver a culpa pela perda. O sujeito pode ter a sensação que pode ter ajudado no processo de perda, pode vir a achar que a desejou. A superação do luto é realizada pouco a pouco e com grande gasto de energia. O desligamento do objeto perdido se dá através da evocação e hipercatexização de cada lembrança relativa ao objeto. Quando o trabalho de luto se conclui o ego fica inteiro outra vez. Em meados da década de 1960, a psiquiatra Kübler-Ross, estuda a partir de sua experiência profissional com pacientes terminais as fases pelas quais passaria o luto. A obra Sobre a morte e o morrer, publicada em 1969, analisa os estágios pelos quais passam as pessoas no processo de terminalidade: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação. As reações de luto, que se estabelecem em resposta à perda de pessoas queridas, caracterizam-se pelo sentimento de profunda tristeza, exacerbação da atividade simpática e inquietude. As reações de luto normal podem estender-se até por um ou dois anos, devendo ser diferenciadas dos quadros depressivos propriamente ditos. No luto normal a pessoa usualmente preserva certos interesses e reage positivamente ao ambiente, quando devidamente estimulada. Não se observa, no luto, a inibição psicomotora característica dos estados melancólicos. Os sentimentos de culpa, no luto, limitam-se a não ter feito todo o possível para auxiliar a pessoa que morreu; outras idéias de culpa estão geralmente ausentes. A melancolia também pode vir a ser reação de perda do objeto amado, objeto este que não precisa ter necessariamente morrido e sim ter sido perdido enquanto objeto de amor. Em alguns casos pode-se constatar a perda, entretanto, não se sabe exatamente o que se perdeu (sabe-se, por exemplo, quem se perdeu, mas não se sabe o que se perdeu nessa pessoa). No melancólico não se pode ver exatamente qual o conteúdo da perda. Diferentemente do processo de luto, apresenta o ego como desprovido de valor, incapaz de qualquer realização. A baixa auto-estima pode estar associada à insônia e a recusa em se alimentar. A gênese da melancolia, segundo Freud, estaria numa ligação objetal que mostrou ser uma catexia de pouco poder de resistência sendo logo liquidada. A libido nesse caso, sem ter direcionamento, desloca-se para o ego estabelecendo uma espécie de identificação deste com o ente perdido. A perda objetal passa a ser uma perda do próprio ego. Nos casos de catexia de pouca resistência constata-se que a escolha amorosa é feita sob uma base narcísica, dessa forma, a libido ao deparar-se com obstáculos pode retroceder ao narcisismo. Conclui-se, portanto, que mesmo em conflito com a pessoa amada não é preciso renunciar à relação amorosa. O amor pelo objeto não pode ser renunciado, mesmo que o próprio objeto o seja. Sendo assim, o afeto volta-se contra o ego como substitutivo fazendo-o sofrer e tirando satisfação sádica de seu sofrimento. Esse aspecto solucionaria o enigma do suicídio. Isso só ocorreria, no entanto, quando o ego trata a si mesmo como objeto de forma a encaminhar-lhe toda a hostilidade originalmente pertencente ao mundo exterior. A melancolia tem uma tendência a se transformar em mania. O conteúdo relatado pelos pacientes com mania na prática clínica, segundo Freud, em nada difere do conteúdo da melancolia, como se ambos lutassem contra o mesmo complexo. Na melancolia o ego sucumbiria ao mesmo e na mania já o teria superado resultando disso um estado de alegria por alívio, de economia de energia. Nesse último caso a libido fora liberada para novas catexias objetais. Nos critérios atuais colocados pelo DSM-IV conta ainda com muitos critérios, similares aos antes mencionados por Freud como perda de peso por recusa à alimentação, insônia e mesmo sentimento de inutilidade e culpa excessiva, sendo esta última diferencial importante com relação à melancolia e luto patológico. A correlação da melancolia com a mania é explicitada pela grande ocorrência casos de Transtorno Bipolar, corroborando em muito também algumas das afirmações de Freud. O luto impede a libido de se movimentar para outro objeto, as pessoas não abandonam de forma tão simples uma atividade dessa libido, ainda que surja um substituto. A respeito desse assunto gostaria de mencionar o filme “Reine Sobre Mim” onde evidencia o aspecto do luto no personagem Charlie em conseqüência da tragédia do dia 11 de setembro quando perde a esposa e filhas isolando-se do mundo externo. O luto não implica condição patológica desde que seja superado após certo período de tempo. No caso de Charlie a partir do luto, da perda do objeto amado que era a família dele, desenvolveu outras características como a culpa que não está presente no luto comum e sim no luto patológico. Segundo Freud, no luto há uma perda relativa a um objeto e na melancolia o sujeito sofre a perda, mas não sabe exatamente o motivo e também pode instituir reação à perda de um objeto amado, uma perda objetal transformada na perda do ego levando a noção de narcisismo. Nas palavras de Freud, (pág. 251, 2º parágrafo linha 4/6), onde diz que “o objeto talvez não tenha realmente morrido, mas tenha sido perdido enquanto objeto de amor”. Além dos sintomas que estão presentes no luto, como o desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, inibição de atividades, na melancolia há uma diminuição da auto-estima e empobrecimento do ego em grande escala. Evidencia-se no melancólico a culpa e a punição, ou seja, ele se auto-recrimina, se auto-envilece, o que significa dizer que se degrada. No luto o mundo torna-se vazio e na melancolia é o ego que se torna vazio. Outro filme entre tantos que poderia citar aqui é “PS: Eu Te Amo”, onde uma jovem plenamente realizada na carreira e na vida afetiva casa-se com seu grande amor que inesperadamente morre. Antes de morrer deixa para ela algumas cartas com mensagens surpreendentes terminando todas com “P.S Eu Te Amo”, sua mãe e suas amigas preocupam-se porque as cartas a mantém presa ao passado, mas na verdade as cartas a ajudam. O filme evidencia bem o estado de luto comum nesse caso, diferentemente de “Reine Sobre Mim” onde o luto de Charlie manifesta outros aspectos como disse antes, um luto patológico. Para Freud, o melancólico perde o amor próprio e tem razões suficientes para que isso ocorra, a perda do objeto, que o melancólico aponta como tendo sido uma perda relativa ao seu próprio ego. Diz ainda que na auto-avaliação, sua maior preocupação não é com o corpo ou sua infelicidade diante dos outros, mas o medo da pobreza, o melancólico não se envergonha nem se oculta porque tudo que dizem de deselegante sobre ele, refere-se à outra pessoa que ele ama ou deveria amar. Ao invés de demonstrar inferioridade e submissão tornam-se pessoas importunas, evidenciando propositalmente que são injustiçadas e desconsideradas. Evidencia o desapontamento proveniente da pessoa amada, a quem foi realizada a escolha objetal, ou seja, a ligação da libido a uma pessoa. A partir desta desconsideração sofrida, a catexia objetal (a busca do objeto) foi liquidada, a libido não foi deslocada para outro objeto e sim foi retirada para o ego. Assim pode ser estabelecida uma identificação do ego com o objeto que foi abandonado. Pode-se dizer que a sombra do objeto caiu sobre o ego e assim este pode ser julgado como se fosse o objeto abandonado. Daí, “Uma perda objetal se transformou numa perda do ego, e o conflito entre o ego e a pessoa amada, numa separação entre a atividade crítica do ego enquanto alterado pela identificação” . Para Freud, a melancolia é a forma patológica do luto, neste o sujeito consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido, na melancolia ao contrário, ele se intitula culpado pela morte da pessoa perdida, identificando de tal maneira com ela que sente os mesmos sofrimentos que imagina que o morto tenha sofrido. Também observou que por ser o luto extremamente doloroso, a pessoa enlutada deve tentar minimizá-la ou evitá-la por completo, daí a importância de que menciona no texto, da família e dos amigos. Segundo Freud, mania em nada difere do conteúdo da melancolia, como se ambos lutassem contra o mesmo complexo. Na melancolia o ego sucumbiria ao mesmo e na mania já o teria superado resultando disso um estado de alegria por alívio, de economia de energia. Neste último caso a libido fora liberada para novas catexias objetais, Freud situa a melancolia como uma afecção narcísica. Concluindo, Freud em sua analogia entre luto e melancolia, destaca que no primeiro perdeu-se o objeto amado e no segundo, houve a perda do eu. Na melancolia o sujeito é invadido pelo outro, pela dor, a perda do objeto do eu. “No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego”. Segundo Freud o sujeito com potencialidade melancólica identifica-se com o objeto perdido, fantasiosamente para evitar a perda, tornando-se estranho para si mesmo. No luto simples não há uma condição patológica e é superado após um determinado tempo, na melancolia o objeto pode ser real ou não, há condição patológica e só é superado se o melancólico for tratado, surge na consciência do melancólico o ódio em forma de culpa e auto-repreensão, no estado de melancolia o eu se divide. Uma parte se volta contra a outra condenando pela perda ou pela incapacidade de viver sem aquilo que se perdeu, se identificando com aquilo que se perdeu. O melancólico vive aquilo que se perdeu de uma forma narcisista, onde só existe pra ele, como a história grega de Narciso que adorava a si mesmo e morreu adorando seu próprio rosto. O sentido do narcisismo está relacionado à noção de identificação narcisista que corresponde ao processo psíquico do qual os investimentos objetais são abandonados e substituídos por identificações. A afecção melancólica como a perda de um objeto de amor conduz a libido, retirada dos objetos, e se desloca para o próprio ego do indivíduo sendo utilizada para o estabelecimento de uma identificação do ego com o objeto perdido. Freud investiga luto e melancolia ressaltando o aspecto natural do primeiro e o aspecto complexo do segundo e ao final ele supõe um esquema funcional que explicaria a melancolia como depreciação de si, insônia, ausência de apetite, falta de vontade de viver entre outros aspectos. Na tentativa de uma dedução do seu mecanismo ele diz, em resumo, que o principal que está em jogo na melancolia parece ser o fato de que o investimento do objeto é substituído por uma identificação. Aproxima o luto normal do luto melancólico, como já foi mencionado anteriormente, faz algumas comparações no luto e melancolia evidenciando na segunda a perturbação da auto-estima que na primeira é ausente na segunda, ou seja, a melancolia, à perda do objeto se mostra muito grave e ameaçadora para o eu. A diferença entre a melancolia e o luto se marca principalmente pelo fato de, no primeiro caso, a dependência do homem em relação a esse objeto se mostra mais profunda, a ponto de tornar-se patológico. Referências bibliográficas: COMBINATO, Denise Stefanoni; QUEIROZ, Marcos de Souza. Morte: uma visão psicossocial. Estu.psicol. (Natal), Natal, v.11, n.2, Aug.2006. DEL PORTO, José Alberto. Conceito e diagnóstico. Ver. Bras. Psiquiatr. São Paulo, 1999. FREUD, Sigmund.(1917[1915]). Luto e melancolia. In: FREUD, Sigmund. Obras Completas. V.14. Rio de Janeiro: imago Editora, 1969.

COMPLEXO DE ÉDIPO

Este presente trabalho destina-se a descrever o Complexo de Édipo como parte da teoria freudiana sobre a sexualidade infantil e sua repercussão para a formação da vida adulta, bem como esclarecer esse processo e como se dá a sua dissolução. O fundador da psicanálise, Sigmund Freud, institui o complexo de Édipo como uma fase da infância onde ocorre uma triangulação na constituição familiar que poderá definir a estrutura psíquica do indivíduo. Freud encontrou na mitologia grega o esteriótipo para este conceito, mais precisamente na obra de Sófocles, Édipo Rei. Tal mito descreve na relação da tríade (pai-mãe-criança), um desejo incestuoso da criança pela mãe e a interferência odiada do pai nessa relação. Édipo Rei, era filho de Laio e Jocasta. Laio, era rei de Tebas e soube por um Oráculo que seria assassinado por seu filho e que este se casaria com sua própria mãe. Para evitar tal tragédia, Laio abandonou seu filho recém-nascido, furando seus pezinhos com pregos, para que morresse. Ocorre que a criança foi encontrada por um pastor, que lhe deu o nome de Edipodos (pés-furados). Mais tarde, Edipodos, foi adotado pelo rei de Corinto. Quando cresceu, ao consultar o Oráculo, “Édipo” recebeu a mesma mensagem que seu pai havia recebido no passado, e com medo de que a tragédia ocorresse, fugiu, pois achava que era filho dos pais adotivos. Tal atitude de nada adiantou, pois Édipo, ao se deparar com alguns negociantes e seu líder, acaba por assassiná-los durante uma briga, sem nem sequer imaginar que o tal líder era Laio, seu pai. Ao chegar a Tebas, Édipo decifra o enigma da Esfinge e livra a cidade de suas ameaças, recebendo o trono do rei e a mão da rainha Jocasta, viúva de Laio. Édipo e Jocasta se casam e têm quatro filhos. Anos mais tarde, chega uma peste à cidade e o casal se consultam com o oráculo, e terrível foi a surpresa ao descobrirem que eram mãe e filho. Jocasta suicidou-se e Édipo furou os próprios olhos tamanho o desespero por não terem reconhecido um ao outro. O Complexo de Édipo é como se fosse uma fórmula usada para explicar o desenvolvimento sexual infantil. Esse conceito foi trabalhado diversas vezes durante a construção da teoria freudiana e mais adiante por seguidores da psicanálise, e ainda hoje inúmeros estudiosos do mundo inteiro se dedicam a este assunto extremamente polêmico. Freud tinha outra teoria, a Teoria do Trauma, e somente depois evoluiu para o conceito do Complexo de Édipo. A característica mais forte do novo conceito foi o valor que se dá à fantasia, enquanto na teoria anterior, a origem da neurose estava no plano da realidade e não da fantasia. Ou seja, inicialmente Freud acreditava que a neurose adulta advinha de um trauma sexual ocorrido na infância e que vinha à tona na adolescência, mas com o tempo ele passou a perceber que as experiências nem sempre eram traumas reais e sim fantasias. A partir dessa tomada de consciência em relação a esta questão, Freud passou a dar mais valor ao conflito psíquico e passou a partir da premissa de que os sentimentos das crianças em relação aos pais são ambivalentes. Segundo Freud, a resolução do Complexo de Édipo é responsável pela inserção da criança na realidade, pela quebra das relações simbióticas, através do reconhecimento das interdições, ou seja, pelo reconhecimento do pai na relação. Esta figura paterna, inicialmente percebida como mero obstáculo à realização dos desejos, é aos poucos introjetada, ou seja, “ocorre um processo de identificação, por meio do qual a criança absorve, como parte integrante do ego, qualidades inerentes ao pai. Ocorre um direcionamento afetivo dos impulsos e reações da criança, mais para uma imagem subjetiva e internalizada da figura do pai do que para o próprio pai, isso também pode ser chamado de interiorização.” ( definição de introjeção retirada do site: http://bemfalar.com/significado/introjecao.html ) O complexo de Édipo é a base que estrutura a personalidade, daí a importância do grau de dificuldade em ultrapassar este momento e identificar-se a figura paterna. Essa dificuldade é vista como um pilar na explicação de muitos comportamentos de dependência e imaturidade de indivíduos adultos. A introjeção da figura paterna, depende muito da postura da mãe em relação ao pai, embora tenha outros elementos a serem levados em consideração. Freud analisava a fase dos 3 ( três) aos 6 (seis) anos de idade, mas não se pode falar em idade exata para a manifestação do complexo de Édipo, muito menos idade exata para que ele se dissolva. Para entender melhor o Complexo de Édipo é importante revisitar a teoria freudiana e suas diferentes formulações ao longo dos anos. Outros autores propõem leituras atualizadas e mais acessíveis, como o psicanalista Juan David Nasio em seu livro Édipo – o complexo do qual nenhuma criança escapa. Nesse livro, Nasio propõe formulações sobre os limites e possibilidades do conceito freudiano. O complexo de Édipo ocorre quando a criança está passando pela fase fálica, ou seja, quando descobre aos 3 (três) anos de idade que terá de obedecer a várias proibições que antes eram desconhecidas. Nessa fase, a criança não pode mais agir como antes, pois a família começa a impor regras e limites. O complexo de Édipo é um conceito universal na psicanálise, visto que desperta sentimentos de amor e ódio direcionados para aqueles que lhes são mais próximos, os pais. Nesse momento, a criança percebe a distinção entre ela e seus pais, e ingressa em uma das fases mais importantes de sua vida, pois é esta fase que determina seu comportamento na fase adulta, principalmente na esfera sexual. Por isso, o complexo de Édipo é um dos conceitos mais famosos da teria freudiana, pois Freud passou anos e anos elaborando e analisando o conceito até chegar a uma conclusão. No início, o complexo de Édipo se referia apenas a uma escolha de um objeto, mas paulatinamente, tornou-se um processo central para o desenvolvimento do conceito de identificação de um indivíduo. Para a vida do menino, o complexo de Édipo se desenvolve através de um relacionamento objetal para com a mãe, ou seja, primariamente usa a mãe para atingir seus objetos de desejo, usa o seio materno para se alimentar. Já a sua relação com o pai é de identificação. Mas esses relacionamentos não têm longa duração, pois logo os desejos incestuosos do menino pela mãe se tornam mais intensos, e o pai passa a ser visto como um obstáculo à realização desses desejos. Logo logo a identificação com o pai carrega-se de hostilidade, e o desejo de livrar-se dele predomina. A idéia de ocupar o lugar do pai junto à mãe predomina. Ou seja, a grosso modo o complexo de Édipo pode ser definido como um sentimento de ambivalência na relação com o pai e uma relação objetal afetuosa com a mãe. ( Carvalho Filho, 2010). Para Freud durante a infância, apaixonar-se por um dos pais e odiar o outro é componente essencial dos impulsos químicos que se formam nessa idade. E o fim do complexo de Édipo é dado pela instauração de regras e limites, ou seja da lei. Desta forma, é pelo medo da castração que o menino começa a desistir de sua paixão incestuosa, iniciando um novo processo, pelo qual acabará por identificar-se com o pai e suas regras, tais regras levam à proibição do incesto. Segundo Freud, os investimentos objetais são abandonados e substituídos por uma identificação. A autoridade do pai é introjetada no ego e assim forma-se o núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o incesto, defendendo o ego do retorno da libido. Por fim, ao mesmo tempo em que se dá o repúdio e a superação das fantasias incestuosas, completa-se a fase mais dolorosa da adolescência: a emancipação da autoridade dos pais, processo que permite a oposição entre pais e filhos, entre a velha e a nova geração, situação imprescindível para o progresso da sociedade. Para verdadeiramente entendermos como se dá a superação do complexo de Édipo, é necessário analisar o complexo de Édipo como um todo. O primeiro objeto erótico de uma criança é o seio materno que a alimenta. A origem do amor está ligada à necessidade satisfeita de nutrição. Este primeiro objeto, o seio materno, é ampliado à figura da mãe da criança que não apenas a alimenta, mas também cuida dela, despertando na criança outras sensações físicas, algumas agradáveis e outras desagradáveis. Ou seja, é através dos cuidados com o corpo da criança que a mãe se transforma no primeiro “sedutor”. Na fase fálica, o órgão genital, no caso do menino, o pênis, já assumiu papel primordial. O menino revela interesse por seu órgão genital através da manipulação do mesmo, e logo descobre que os adultos reprovam esse comportamento pois dão a ele um castigo quando tem esse comportamento. Essa punição é a castração, ou seja, a destruição do complexo de Édipo é ocasionada pela ameaça da castração. Neste impasse, a catexia objetal da mãe deve ser abandonada, e seu lugar pode ser preenchido ou por uma identificação com a mãe ou uma intensificação de sua identificação com o pai, como resultado mais normal e que firmaria a masculinidade, no caso do menino. Desta forma, o complexo de Édipo é destruído pelo complexo de castração. Nas meninas, ele se faz possível pois a menina aceita a castração como um fato consumado, ao passo que o menino teme a possibilidade de sua ocorrência. Apesar do complexo de Édipo acontecer na infância, o adolescente revive esta fase, e os resultados disso estão presentes na vida de qualquer adulto. Toda essa teoria é relevante pois caracteriza as diferenças do indivíduo em relação aos seus pais e possibilita que a criança perceba que seus pais pertencem a uma dimensão cultural e social e que não podem viver em função dela. Todas essas conclusões foram perseguidas por Freud e fomentam mais estudos sobre suas implicações no decorrer da vida do ser humano. Por todos estes aspectos, entende-se que os sentimentos contraditórios da criança que ama a figura paterna mas que também a hostiliza, é o que é denominado de diferenciação. Essa diferenciação é saudável e leva a uma identificação positiva do menino com o pai, e no caso da menina, ocorre uma identificação positiva com a mãe. A resolução positiva do complexo de Édipo é isso: o menino tem o desejo de ser forte como o pai e ao mesmo tempo sente ódio e ciúme dele. O menino é hostil ao pai por que ele possui a mãe. A menina deseja ser acolhedora, bela e atraente como a mãe e ao mesmo tempo sente ódio e ciúme da mãe pelo mesmo motivo. A menina é hostil à mãe porque ela possui o pai e tem medo de perder o amor da mãe, que sempre foi acolhedora. Mas também pode ocorrer uma resolução negativa do complexo de Édipo, é o caso da identificação negativa. O medo de perder aquele a quem hostiliza-se ou de não ser amado faz com que a identificação aconteça com a figura do sexo oposto e isto pode gerar comportamentos homossexuais. A forma como se dá a dissolução do complexo de Édipo na vida de um indivíduo, ainda poderá manifestar-se como conflitos durante a sua idade adulta, ou seja, a construção da estrutura psíquica de um indivíduo está diretamente ligada à forma como se deu essa dissolução. Diante de toda a teoria exposta, pela observação dos aspectos analisados, conclui-se que o complexo de Édipo caracteriza-se pela contradição entre os sentimentos de amor e de hostilidade que uma criança tem em relação aos pais. É fato que nenhum indivíduo vem ao mundo sem a participação de um pai e de sua mãe, portanto, para a psicanálise, essa tríade é a essência do conflito que existe em todo ser humano. Portanto, o complexo de Édipo é mesmo muito importante, porque caracteriza a diferenciação da criança em relação ao pai e à sua mãe. A criança, ao perceber que os pais têm compromissos sociais dos quais ela não está incluída completa essa cisão. O pai insere a criança na sociedade e na cultura e a criança percebe que a mãe pertence ao pai, e os sentimentos hostis dirigidos em relação a este são por fim ditos como saudáveis e necessários ao seu desenvolvimento. Bibliografia: MEZAN, R. Freud: A trama dos conceitos. Editora Perspectiva, 4ª edição, 2003. FREUD, Sigmund. A dissolução do Complexo de Édipo (1924), v. XIX, p.189-199. ( Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1996.) FREUD, Sigmund. Publicações pré-psicanalíticas e esboçoes inéditos. Rio de Janeiro, Imago, 1977. p. 221. ( Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1996.) FREUD, Sigmund. O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais (1916), v. XVI, p.325-342. ( Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1996.)