sábado, 12 de setembro de 2015

Resistência, transferência e contratransferência

A resistência: A resistência, segundo Freud, é considerada uma força psíquica inconsciente que tem a função de eliminar da consciência a idéia dolorosa e ao mesmo tempo impede seu retorno à memória. A resistência é um conceito fundamental para a psicanálise. Encontra-se presente em quase todos os textos freudianos, e atravessa todo o processo de análise. A palavra “resistência” apresenta diversos significados. Numa síntese das definições, podemos dizer que o conceito de resistência na psicanálise é o conjunto das reações de um paciente cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise, é tudo o que, nos atos e palavras do paciente, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente. A resistência representa uma atitude de oposição do paciente às descobertas do analista aos seus desejos inconscientes. Representa tudo aquilo que atrapalha o trabalho terapêutico e funciona como obstáculo a elucidação dos sintomas e a evolução do tratamento. Freud já mencionava a resistência enquanto um obstáculo à hipnose do livro Hipnotismo, onde escreve que "essa influência apenas raramente se efetua sem resistência da parte da pessoa hipnotizada". Ainda nesse artigo, afirma que "sempre que surge uma intensa resistência contra o uso da hipnose, devemos renunciar ao método e esperar até que o paciente, sob a influência de outras informações, aceite a idéia de ser hipnotizado". Assim como a hipnose, Freud também observou que a técnica da pressão podia falhar na tarefa de suscitar as lembranças esquecidas, apesar de toda a insistência empregada junto ao paciente. Quando isso acontecia, Freud percebia que havia encontrado uma oposição para penetrar em uma camada mais profunda da cadeia de representações. Freud pensava que a causa da resistência era a ameaça ao aparecimento de idéias e afetos desagradáveis. Essas idéias tinham sido reprimidas e resistiam à rememoração por serem de natureza dolorosa e capazes de despertar afetos de vergonha, autocensura, dor física. Na segunda fase da Psicanálise a Resistência passou a ser percebida também como contra a apercepção de impulsos inaceitáveis. Assim sendo, era entendida como distorções das lembranças inconscientes, disfarçadas na associação livre. Em relação ao fenômeno clínico da resistência, Freud foi abandonando de vez a sugestão existente nas técnicas da hipnose e da pressão, passando a investir no fluxo de associações livres do paciente, sem constrangimento, sem crítica e guiada pelo acaso. E ao perceber e conceituar teoricamente o fenômeno clínico da resistência, Freud abandonou as técnicas utilizadas até então em sua terapêutica e começou a percorrer um caminho particular, rumo à criação da própria psicanálise. De acordo com Freud, existem cinco tipos de resistências, que provêm de três direções: do ego, do id e do superego: Do ego: “O ego é a fonte de três, cada uma diferindo em sua natureza dinâmica”. São elas: a resistência da repressão, a resistência da transferência – que estabelece uma relação com a situação analítica, reanimando assim uma repressão que deve somente ser relembrada – e a resistência originada do “ganho proveniente da doença” baseada numa “assimilação do sintoma no ego”. Resistência da Repressão: Poderia ser considerada como a manifestação clínica da necessidade do indivíduo de se defender de impulsos, recordações e sentimentos que, se emergissem na consciência, causariam um estado de sofrimento, ou ameaçariam causar tal estado. Resistência da Transferência: Essencialmente semelhante à resistência da repressão, possui a especial qualidade de, ao mesmo tempo que a exprime, também refletir a luta contra impulsos infantis que, sob forma direta ou modificada, emergiram em relação à pessoa do analista. De ganho secundário: Esses ganhos secundários oriundos dos sintomas são bem conhecidos sob a forma de vantagens e gratificações obtidas da condição de estar doente e de ser cuidado ou ser objeto do compadecimento dos outros, ou sob a forma de gratificação de impulsos agressivos vingativos para com aqueles que são obrigados a compartilhar o sofrimento do paciente. Do Id : Resistência que necessita de elaboração. Devido à resistência dos impulsos instintuais a qualquer modificação no seu modo e na sua forma de expressão. Segundo Freud (1926): “E...como os senhores podem imaginar, é provável que haverá dificuldades se um processo instintual, que por décadas inteiras trilhou novo caminho que recém se lhe abriu.” Do Superego: Resistência enraizada no sentimento de culpa do paciente ou na sua necessidade de punição. Freud considerava a “resistência do superego” como sendo a mais difícil de o analista discernir e abordar. Ela reflete a ação de um “sentimento inconsciente de culpa” e é responsável pela reação aparentemente paradoxal do paciente a todo passo que, no trabalho analítico, representa a materialização de um ou outro impulso de que vão se defendendo pressionados pela sua consciência moral. A Transferência e a contratransferência: A transferência é de reimpressões e como novas edições de antigas experiências traumáticas. Dizia, “este amor consiste em novas edições de antigas características e que ele repete reações infantis”. Quando fala do desenvolvimento do individuo, Freud diz que, este se conduzirá por sua vida erótica através de uma ação combinada da sua disposição inata com as vivências de seus primeiros anos de vida. E que “o trabalho analítico visa desvendar a escolha objetal infantil da paciente e as fantasias tecidas ao redor dela”. É inegável que domar a transferência é muito difícil para o psicanalista, mas é justamente essa dificuldade que torna possível a atualização e manifestação das movimentações amorosas, esquecidas e o fenômeno essencial em que se baseia o processo de qualquer terapia analítica. Inicialmente Freud a considerava como uma forma de resistência ao tratamento, uma forma de amor que a paciente desenvolvia pelo médico. Posteriormente a considerou resultante guardadas no inconsciente. Pode-se dizer que no processo psicoterápico há transferência em tudo, mas nem tudo deve ser entendido e trabalhado como sendo transferência. A transferência é uma necessidade de repetição ou repetição de uma necessidade não satisfeita no passado. Neste último caso, ocorre quando se trazem para o processo psicoterapêutico necessidades antigas, primitivas, que serão retomadas na relação com o psicoterapeuta. Essas necessidades podem ser repetidas a partir da preservação do espaço terapêutico, que é a soma de todos os procedimentos que organizam, normatizam e possibilitam o funcionamento grupal. Esse espaço, mantido e preservado, dá ao paciente uma representação de segurança, onde ele poderá experimentar novamente e modificar as vivências anteriores que não foram bem resolvidas. Nas terapias de grupo, às vezes, cargas pulsionais intensas, são dirigidas aos membros do grupo ao invés de ir para o analista. O analista deve dar um significado que possa ser partilhado por todos do grupo e não apenas por quem a proporcionou. O que facilita esse trabalho é que as manifestações transferenciais de um grupo se desenvolvem de acordo com a evolução do próprio grupo. Dependendo do momento do grupo, podem ocorrer as transferências cruzadas (necessidade de amor e dependência/descrença e desesperança) e posteriormente passa a existir uma preocupação entre os membros do grupo. Neste tipo de trabalho, o analista fará com que os membros tenham a capacidade de reconhecer os próprios sentimentos contratransferenciais que os outros lhe despertam. Dessa forma, será possível diferenciar o que é seu, o que é do outro e também o que cada um desperta no outro. O analista é uma mera figura transferencial modelada pelas identificações projetivas dos pacientes, por isso, serão as atitudes do analista que desencadearão a resposta transferencial do paciente. A partir da imagem do terapeuta, é preciso pensar nos sentimentos deste em relação ao paciente, ou seja, a contratransferência. No início, Freud considerava a contratransferência como algo prejudicial, que indicava que o terapeuta não estava bem analisado. Esta idéia foi mudando e passou a ser entendida como sendo sentimentos do mundo interno do paciente que são sentidos pelo terapeuta e também como uma forma de comunicação primitiva de sentimentos que o paciente não consegue reconhecer e nem verbalizar. A contratransferência refere-se às emoções que se manifestam no terapeuta diante do grupo, que podem ou não ser percebidas por ele. Segundo Freud: “Todos possuem no seu próprio inconsciente, um instrumento com que podem interpretar as expressões inconscientes do outro”. Percebe-se então, que o terapeuta pode guiar-se por sua contratransferência, e essa atitude indica uma comunicação de inconsciente para inconsciente. Essa interpretação é empírica. As ações devem ser guiadas pelo afeto , e este afeto deve ser experimentado a partir da autenticidade do sentir. A identificação projetiva em que o grupo ou um membro deste grupo atribui ao analista características que imaginam ser dele, é preciso pensar no analista em relação a estas projeções. Neste ponto, pode ocorrer certa confusão. A contratransferência e a identificação projetiva podem se confundir e será necessário uma diferenciação entre elas, pois como saber se o que o terapeuta sente é uma emoção projetada ou uma emoção contratransferencial? A identificação projetiva pode ser percebida quando no trabalho há um mal-estar, uma sensação de desconforto, uma sensação de experienciar sentimentos intensos, um peso, muitas vezes quase impossível de suportar. O analista tem uma perda temporária de insight e inicialmente tem dificuldades para perceber a projeção. Outro fator a ser considerado é que a identificação projetiva é tida como uma função da inveja, e que o ingresso forçado em outra pessoa destrói suas melhores qualidades. Tudo o que foi dito reforça o fato de que a psicoterapia analítica se dá através do vínculo, onde se revivem antigas e se criam novas situações, onde sentimentos e afetos são vividos intensamente. BIBLIOGRAFIA: DINIS, V. C. O conflito na transferência: desejo e violência. Revista ABPAG, v. 3, p. 39-47, 1996. FREUD, S. (1912). A dinâmica da transferência. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago. 1987. p. 133-143. FREUD, S. (1915). Observações sobre o amor transferencial. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago. 1987. p. 207-221.

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