sábado, 12 de setembro de 2015

HISTÓRIA DA PSICANÁLISE

Sigmund Freud, o Pai da Psicanálise, no fim do século XIX, precisou achar um modo científico de apreensão da realidade psíquica, face aos mistérios da mente humana, reduzidos na época a metáforas e analogias físicas, materiais, anatômicas e fisiológicas. Isto lhe valeu críticas e ataques por parte da comunidade científica da época. É bom lembrar que o pensamento filosófico estava sob o império do Iluminismo, do Idealismo e já se apontava para seu contraponto – o movimento romântico. A psicanálise possui seu próprio conhecimento científico, ou seja, compreendê-la envolve questões epistemológicas e relações com outras áreas do saber, além de sua contextualização na história. Daí a importância do estudo da história da psicanálise. A psicanálise é conhecida como uma área do conhecimento independente da psicologia, que surgiu como método alternativo para dar conta do sofrimento psíquico e entender a mente como um todo. Suas noções e hipóteses teóricas são organizadas de maneira a constituir modelos para a compreensão de fenômenos psíquicos que fazem parte de casos clínicos e da vida cotidiana. O que marcou o início dos estudos que levaram ao desenvolvimento da Psicanálise foi o momento em que Freud iniciou seus questionamentos acerca da histeria, como algo que vai além de causas orgânicas. Contribuiu para a formação de um método de investigação da psique, uma técnica de tratamento e uma teoria do inconsciente e do psíquico. Como médico, Freud interessou-se por fisiologia e anatomia cerebral e fazia pesquisas em laboratório. Ocorre que as pesquisas não lhe proporcionava oportunidades de trabalho que garantissem seu sustento, e por isso, Freud abandonou o laboratório e ingressou no hospital geral. Neste contexto, o jovem médico observou os primeiros casos de histeria, muito comuns nesta epóca. Como clínico, Freud tratava essencialmente de mulheres da burguesia vienense, qualificadas como “doentes dos nervos” e sofrendo de distúrbios histéricos. Procurou, antes de tudo, curar e tratar de suas pacientes, aliviando os seus sofrimentos psíquicos. Por um ano, utilizou os métodos terapêuticos aceitos na época: massagens, hidroterapia, eletroterapia. Mas logo constatou que esses tratamentos não tinham nenhum efeito. Foi quando começou a utilizar a hipnose, inspirando-se nos métodos de sugestão de Hippolyte Bernheim. Após esse primeiro contato com os casos de histeria, Freud começou a pesquisar esse transtorno focalizando aspectos para além do biológico. Obteve ajuda de Josef Breuer (médico neurologista austríaco), e através de relatos do próprio Breuer, Freud teve acesso ao caso de uma paciente histérica (Ana O). Utilizavam a hipnose para fazer com que a paciente lembrasse de experiências traumáticas, porém não havia muita eficácia, uma vez que posteriormente o sintoma retornava. Breuer, foi antecessor de Freud nos mistérios da Histeria e chega à ousadia de viver na experiência com Ana O, primeira paciente da psicanálise, a intimidade da relação analítica, definida mais tarde como o campo da transferência-contransferência. Breuer sucumbe e transfere o encargo para Freud, que começa seu caminho para apreender a alma humana, aquilo que residia e reside aquém do palpável, do sensório, a área do Inconsciente. Foi aí que Freud sugeriu a Breuer o uso do método catártico, pois este possibilitava ao paciente lembrar da “carga” em que estivera preso para liberá-la em seguida, através da emoção, buscando assim a cura dos sintomas. Descobre na experiência com o método catártico a possibilidade de expurgar os nossos “vômitos” psíquicos e “lixos” mentais para aliviar a dor mental. Complementa este método com outro – a hipnose. O objetivo é a fala, a comunicação verbal e o descobrimento do trauma, que se estende e fica apontado para traumas sexuais e reais. Charcot ministrava aulas sobre Histeria em Paris. Lá, Freud frequentava também o Instituto de Medicina Legal para ver os vestígios e causas reais, traumáticas, anatopatológicas daquela enfermidade. Em suas pesquisas, Freud começa a analisar que a Hipnose já não lhe satisfazia nem ajudava a seus analisandos, pois a força da resistência, daquilo que ele mais tarde chamou de Recalque, não obedece às ordens do Hipnotizador. Foi quando resolveu ir adiante e pediu ao seu analisando que falasse tudo que lhe viesse à mente, sem censura, sem subterfúgio. Após muitos estudos em parceria com Breuer, Freud publicou em 1895 os “Estudos sobre a histeria” introduzindo a teoria da sedução e do trauma. Desta forma, trabalhando nessa parceria com Breuer, Freud abandonou progressivamente a hipnose pela catarse, inventou o método da associação livre e, enfim, a psico-análise. Essa palavra foi empregada pela primeira vez em 1896 e sua invenção foi atribuída a Breuer.” Foi quando de fato nasceu a idéia de Associação Livre. E em contraponto a isso, surge a idéia da Atenção Flutuante, do lado do Analista, uma escuta num estado onírico onde se faz necessário, uma disciplina para escutar, exercitando a atitude de cuidar da memória, desejo e necessidade de compreender. Os outros elementos da psicanálise vão ser a Tranferência, Contratransferência e a Interpretação. Já no âmbito de sua amizade com Wilhelm Fliess (médico alemão), ocorreram vários acontecimentos importantes na vida de Freud: sua autoanálise, um intercâmbio de caso (Emma Eckestein), a publicação do já citado primeiro grande livro, “Estudos sobre a histeria”, no qual são relatadas várias histórias de mulheres e, enfim, o abandono da teoria da sedução segundo a qual toda neurose se explicaria por um trauma real. Essa renúncia, fundamental para a história da psicanálise, ocorreu em 21 de setembro de 1897. Freud comunicou-a a Fliess em tom enfático, em uma carta que se tornaria célebre: “não acredito mais na minha Neurótica.” Passou então a utilizar no lugar da hipnose, a associação livre, com a qual pedia para a paciente falar livremente tudo que lhe viesse à cabeça, sem censura. Substituiu ainda, a teoria do trauma pela teoria da fantasia segundo a qual os elementos relatados na construção da história de cada paciente não fazem parte da realidade. Começou então a elaborar sua doutrina da fantasia, concebendo em seguida uma nova teoria do sonho e do inconsciente, centrada no recalcamento e no Complexo de Édipo. Foi então que Freud iniciou uma pesquisa que foi além da histeria, investigando a vida sexual dos denominados neuróticos. Ocorre que Freud tinha em mente uma outra origem para a histeria, o que culminaria na transição do método catártico para a psicanálise. Para Freud, havia uma relação direta entre histeria e sexualidade. Como Breuer não concordava com Freud, se afastaram. Passado o período pré-psicanalítico (1877-1896) tem-se início a primeira fase da psicanálise (1896-1906). Nesta, Freud abandona o método catártico de vez e o substituiu pela psicanálise. O ambiente cultural da Áustria, o contexto iluminista pós-Revolução Industrial e a Revolução Francesa, aliada aos conhecimentos psiquiátricos, neurofisiológicos, literários, sociológicos, antropológicos e artísticos da época, contribuíram para que Freud identificasse fenômenos mentais que iam além dos já perceptíveis pela consciência. Freud olhava o cérebro e a mente como fenomenologicamente idênticos e estava preocupado com o modelo neurofisiológico, a hidrostase, a termodinâmica e o conceito darwiniano de evolução da mente. Isso influenciou de forma decisiva o modelo de inconsciente construído por Freud, estabelecendo a centralidade dos conceitos de pulsão (formulação teórica para tentar expressar a transformação de estímulos em elementos psíquicos) e recalque. Decorre daí formulações sobre “investimento”, “representação”, “resistência”, “defesas”, fases do desenvolvimento da libido”, “a teoria inicial sobre ansiedade”, a “transferência” como revivência de uma memória passada, e a “realidade psíquica”. Da nova teoria do inconsciente nasceria um segundo grande livro, publicado em novembro de 1899, “A Interpretação dos Sonhos”. Todas as teorias freudianas resultaram da coragem do Pai da Psicanálise em interpretar seus próprios sonhos e fatos exaustivos elaborados neste seu livro maior. Freud traz uma contribuição que ficaria até os nossos tempos, de apreender que a realidade psíquica é mais do que a realidade externa e que apreendê-la é um trabalho continuo e interminável que ele nos lega. A Psicanálise, portanto, é baseada nos ensinamentos freudianos que o próprio Freud convencionou chamar de Metapsicologia - O Inconsciente, O Recalque, A Teoria das Pulsões, Luto e Melancolia e Sobre o Narcisismo, são textos básicos e considerados a Bíblia de qualquer psicoterapeuta e ou psicanalista. Ampliando sua metapsicologia, Freud escreveu a Segunda Tópica, no qual elabora os conceitos de Id, Ego e Super Ego e, finalmente a teoria última das pulsões – as pulsões de morte e vida. Entre 1901 e 1905, Freud publicou seu primeiro caso clínico (Dora) e três outras obras: “A psicopatologia da vida cotidiana” (1901), “Os chistes e sua relação com o inconsciente” (1905) e “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905). Em 1902, em conjunto com outras personalidades da época, fundou a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, primeiro círculo da história do freudismo. Durante os anos que se seguiram, muitas personalidades do mundo vienense se juntaram ao grupo. Durante o primeiro quarto do século, a doutrina freudiana se implantou em vários países: Grã-Bretanha, Hungria, Alemanha, costa leste dos Estados Unidos. Na Suíça produziu-se um acontecimento maior na história do movimento psicanalítico: Eugen Bleuler, médico co-chefe da clínica do hospital Burghölzli de Zurique, começou a aplicar o método psicanalítico ao tratamento das psicoses, inventando ao mesmo tempo a noção de esquizofrenia. A teoria criada por Freud, e seus termos, circulavam até mesmo em conversas coloquiais em Viena, no início do século XX e se difundiu por inúmeras áreas do saber. Freud inaugurou uma nova área do conhecimento, uma nova forma de ver e pensar o mundo: as neuroses, a infância, a sexualidade, os relacionamento humanos, a subjetividade e a sociedade. No dia 3 de março de 1907, Carl Gustav Jung, aluno e assistente de Bleuler, foi a Viena para conhecer Freud. Depois de várias horas de conversa, ficou encantado com esse novo mestre. Seria o primeiro discípulo não-judeu de Freud. Temendo o antissemitismo e que a psicanálise fosse assimilada a uma “ciência judaica”, Freud decidiu “desjudeizá-la”, pondo Jung à frente do movimento. Entre 1909 e 1913, Freud publicou mais duas obras: “Leonardo da Vinci: uma lembrança da sua infância” (1910) e “Totem e Tabu” (1912-1913). Até a Primeira Guerra Mundial a figura de Freud centralizava a situação. Mas aos poucos ocorreu a formação de tradições psicanalíticas locais. Jung e Freud romperam todas as suas relações. Não suportando desvios em relação à sua doutrina, Freud publicou, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, um verdadeiro panfleto, “A história do movimento psicanalítico”, no qual denunciou as traições de Jung e Adler. Depois, criou um Comitê Secreto, composto de seus melhores defensores, que até usavam um anel de fidelidade. Apoiados por Jones, os berlinenses (Abraham e Eitingon) preconizavam a ortodoxia institucional, enquanto os austro-húngaros (Rank e Ferenczi) se interessavam mais pelas inovações técnicas. Uma nova dissidência marcou ainda a história desse primeiro freudismo: a de Wilhelm Reich. É importante citar que Freud, por sua doutrina e por sua condição de terapeuta, desempenhou um papel na emancipação feminina. Nos anos 1920, Freud publicou três obras fundamentais, através das quais definiu sua segunda tópica e remanejou inteiramente sua teoria do inconsciente e do dualismo pulsional: “Mais-além do princípio de prazer” (1920), “Psicologia das massas e análise do eu” (1921), “O eu e o isso” (1923). Esse movimento de reformulação conceitual já havia começado em 1914, quando foi publicado um artigo dedicado à questão do narcisismo. Confirmou-se, em 1915, com a elaboração de uma metapsicologia e a publicação de um ensaio sobre a guerra e a morte, no qual Freud sublinhava a necessidade para o sujeito de “organizar-se em vista da morte, a fim de melhor suportar a vida”. Dessa reformulação, centrada na dialética da vida e da morte e em uma acentuação da oposição entre o eu e o isso, nasceriam as diferentes correntes do freudismo moderno: Kleinismo, Ego Psycholog, Self Psychology, lacanismo, annafreudismo, Independentes. Em fevereiro de 1923, Freud descobriu, do lado direito de seu palato, um pequeno tumor, que devia ser logo extirpado. Em um primeiro tempo, Felix Deutsch, seu médico, lhe ocultou a natureza maligna desse tumor. Freud se indispôs com ele. Seis meses depois, Hans Pichler, cirurgião vienense, procedeu a uma intervenção radical: a ablação dos maxilares e da parte direita do palato. Freud se submeteu a trinta e uma operações , todas sob a supervisão de Max Schur. Freud foi obrigado a suportar uma prótese, que ele chamava de “monstro”. “Com seu palato artificial”, escreveu Stefan Zweig, “ele tinha visivelmente dificuldade para falar. Mas não abandonava seus interlocutores, pois tinha o objetivo de provar a todos a sua força de vontade, que era muito maior do que seu “mal”. Em 1926, processou Theodor Reik, e em seguida defendeu com fervor os psicanalistas não médicos, publicando “A questão da análise leiga”. No ano seguinte, publicou com Oskar Pfister, seu amigo, “O futuro de uma ilusão”, obra na qual comparava a religião a uma neurose. Essa obra causou uma polêmica inigualável. Em março de 1938, no momento da invasão da Àustria pelas tropas alemãs, decidiram-se pela recusa a política de criar em Viena um instituto “arianizado” como o de Göring, em Berlim. Decidiram-se também por dissolver a Wiener Psychoanalytiche Vereinigung e transporta-la “para onde Freud fosse morar”. Graças à intervenção do diplomata americano William Bullitt (1891-1967) e a um resgate pago por Marie Bonaparte, Freud pôde deixar Viena com sua família em 1938, mas no momento de partir, foi obrigado a assinar uma declaração na qual afirmava que nem ele nem seus próximos haviam sido importunados pelos funcionários do Partido Nacional-Socialista. Em Londres instalou-se em uma bela casa em Maresfield Gardes 20, futuro Freud Museum. Ali, redigiu sua última obra, “Moisés e o monoteísmo”. Nunca saberia do destino dado pelos nazistas às suas quatro irmãs, exterminadas em campos de concentração. Em 23 de setembro de 1939, às três horas da manhã, em Londres, depois de dois dias de coma, Freud faleceu aos 83 anos de idade. Em virtude dos fatos mencionados percebemos que é necessário frisar que todas as teorias freudianas resultaram da sua coragem em interpretar seus próprios sonhos e fatos exaustivos elaborados em seu livro maior – a Interpretação dos Sonhos. Como se vê, Freud traz dessa maneira uma contribuição que ficaria até os nossos tempos e acredito interminável, de apreender que a realidade psíquica é mais do que a realidade externa. Levando em consideração estes aspectos, conclui-se que a Psicanálise é baseada nos ensinamentos freudianos que o próprio Freud convencionou chamar de metapsicologia, e, ampliando essas teorias, escreveu os conceitos de Id, Ego e Super Ego e, finalmente a teoria última das pulsões – as pulsões de morte e vida. Eis um resumo da História da Psicanálise, que conta com mais de cem anos de efetivo método de trabalho até a atualidade. Bibliografia: Freud, Sigmund. Uma breve descrição da psicanálise (1924 ) in: Freud, Sigmund. O ego e o Id e outros trabalhos, (1923-1925) in Obras completas de Sigmund Freud (23 v.), V.19. RJ, Imago, 1996. Gay, Peter. Freud - Uma Vida para o Nosso Tempo. (1923) Biografia traduzida por Denise Bottmann. Editora Companhia das Letras, 2012.

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