sábado, 12 de setembro de 2015

LUTO E MELANCOLIA

“Luto deve ser algo que todos temos em comum, mas parece diferente em todos. Não é só pela morte que temos que sofrer. É pela vida. Pelas perdas. Pelas mudanças. E quando imaginamos porque algumas vezes é tão ruim, porque dói tanto... temos que nos lembrar que pode mudar instantaneamente. Quando dói tanto que não se pode respirar, é assim que você sobrevive. Lembrando-se que um dia, de alguma forma, impossivelmente, não se sentirá mais assim. Não vai doer tanto. O luto vem em seu próprio tempo para todos. À sua própria maneira. O melhor que podemos fazer, o melhor que qualquer um pode fazer, é tentar ser honesto. A parte ruim, a pior parte do luto, é que não se pode controlá-lo. O melhor que podemos fazer é tentar nos permitir senti-lo, quando ele vem. E deixar pra lá quando podemos. A pior parte é que no momento em que você acha que superou, começa tudo de novo. E sempre, toda vez, ele tira o seu fôlego. Há cinco estágios de luto. São diferentes em todos nós, mas sempre há cinco. Negação. Raiva. Barganha. Depressão. Aceitação.” (Grey's Anatomy) A correlação colocada por Freud entre luto e melancolia em seus estudos justifica-se pela semelhança no quadro geral dessas duas manifestações. O luto caracteriza-se pela reação normal relativa à perda de um ente querido e a melancolia, hoje nomeada como depressão, é um diagnóstico de grande incidência na população mundial. A seguir segue breve apanhado desses estudos de Freud, relacionando-o com outros estudos na área. O luto, de maneira geral, manifesta-se como estado de reação a perda de algo amado e não implica condição patológica desde que seja superado após certo período de tempo. Suas características assimilam-se muito as da melancolia que possui como traços marcantes desânimo profundo e penoso, cessação de interesse pelo mundo externo e inibição de toda e qualquer atividade. A característica de maior peso na diferenciação dos dois estados é presença de baixa auto-estima e auto-recriminação muitos comuns na Melancolia e inexistentes no luto normal. No luto profundo existe a perda de interesse pelo mundo externo a não ser que se trate de circunstâncias ligadas ao objeto perdido. Há a dificuldade de adotar um novo objeto de amor. A inexistência do objeto exige grande esforço para redirecionamento da libido. A oposição a esse redirecionamento da libido pode acontecer de maneira tão intensa que dá lugar a um desvio de realidade (psicose alucinatória), entretanto, essa manifestação não ocorre no luto normal. Com relação ao luto normal é importante salientar que a perda do ente amoroso não constitui presença de auto-recriminação, mas, em pessoas nas quais existe pré-disposição para neurose obsessiva pode haver a culpa pela perda. O sujeito pode ter a sensação que pode ter ajudado no processo de perda, pode vir a achar que a desejou. A superação do luto é realizada pouco a pouco e com grande gasto de energia. O desligamento do objeto perdido se dá através da evocação e hipercatexização de cada lembrança relativa ao objeto. Quando o trabalho de luto se conclui o ego fica inteiro outra vez. Em meados da década de 1960, a psiquiatra Kübler-Ross, estuda a partir de sua experiência profissional com pacientes terminais as fases pelas quais passaria o luto. A obra Sobre a morte e o morrer, publicada em 1969, analisa os estágios pelos quais passam as pessoas no processo de terminalidade: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação. As reações de luto, que se estabelecem em resposta à perda de pessoas queridas, caracterizam-se pelo sentimento de profunda tristeza, exacerbação da atividade simpática e inquietude. As reações de luto normal podem estender-se até por um ou dois anos, devendo ser diferenciadas dos quadros depressivos propriamente ditos. No luto normal a pessoa usualmente preserva certos interesses e reage positivamente ao ambiente, quando devidamente estimulada. Não se observa, no luto, a inibição psicomotora característica dos estados melancólicos. Os sentimentos de culpa, no luto, limitam-se a não ter feito todo o possível para auxiliar a pessoa que morreu; outras idéias de culpa estão geralmente ausentes. A melancolia também pode vir a ser reação de perda do objeto amado, objeto este que não precisa ter necessariamente morrido e sim ter sido perdido enquanto objeto de amor. Em alguns casos pode-se constatar a perda, entretanto, não se sabe exatamente o que se perdeu (sabe-se, por exemplo, quem se perdeu, mas não se sabe o que se perdeu nessa pessoa). No melancólico não se pode ver exatamente qual o conteúdo da perda. Diferentemente do processo de luto, apresenta o ego como desprovido de valor, incapaz de qualquer realização. A baixa auto-estima pode estar associada à insônia e a recusa em se alimentar. A gênese da melancolia, segundo Freud, estaria numa ligação objetal que mostrou ser uma catexia de pouco poder de resistência sendo logo liquidada. A libido nesse caso, sem ter direcionamento, desloca-se para o ego estabelecendo uma espécie de identificação deste com o ente perdido. A perda objetal passa a ser uma perda do próprio ego. Nos casos de catexia de pouca resistência constata-se que a escolha amorosa é feita sob uma base narcísica, dessa forma, a libido ao deparar-se com obstáculos pode retroceder ao narcisismo. Conclui-se, portanto, que mesmo em conflito com a pessoa amada não é preciso renunciar à relação amorosa. O amor pelo objeto não pode ser renunciado, mesmo que o próprio objeto o seja. Sendo assim, o afeto volta-se contra o ego como substitutivo fazendo-o sofrer e tirando satisfação sádica de seu sofrimento. Esse aspecto solucionaria o enigma do suicídio. Isso só ocorreria, no entanto, quando o ego trata a si mesmo como objeto de forma a encaminhar-lhe toda a hostilidade originalmente pertencente ao mundo exterior. A melancolia tem uma tendência a se transformar em mania. O conteúdo relatado pelos pacientes com mania na prática clínica, segundo Freud, em nada difere do conteúdo da melancolia, como se ambos lutassem contra o mesmo complexo. Na melancolia o ego sucumbiria ao mesmo e na mania já o teria superado resultando disso um estado de alegria por alívio, de economia de energia. Nesse último caso a libido fora liberada para novas catexias objetais. Nos critérios atuais colocados pelo DSM-IV conta ainda com muitos critérios, similares aos antes mencionados por Freud como perda de peso por recusa à alimentação, insônia e mesmo sentimento de inutilidade e culpa excessiva, sendo esta última diferencial importante com relação à melancolia e luto patológico. A correlação da melancolia com a mania é explicitada pela grande ocorrência casos de Transtorno Bipolar, corroborando em muito também algumas das afirmações de Freud. O luto impede a libido de se movimentar para outro objeto, as pessoas não abandonam de forma tão simples uma atividade dessa libido, ainda que surja um substituto. A respeito desse assunto gostaria de mencionar o filme “Reine Sobre Mim” onde evidencia o aspecto do luto no personagem Charlie em conseqüência da tragédia do dia 11 de setembro quando perde a esposa e filhas isolando-se do mundo externo. O luto não implica condição patológica desde que seja superado após certo período de tempo. No caso de Charlie a partir do luto, da perda do objeto amado que era a família dele, desenvolveu outras características como a culpa que não está presente no luto comum e sim no luto patológico. Segundo Freud, no luto há uma perda relativa a um objeto e na melancolia o sujeito sofre a perda, mas não sabe exatamente o motivo e também pode instituir reação à perda de um objeto amado, uma perda objetal transformada na perda do ego levando a noção de narcisismo. Nas palavras de Freud, (pág. 251, 2º parágrafo linha 4/6), onde diz que “o objeto talvez não tenha realmente morrido, mas tenha sido perdido enquanto objeto de amor”. Além dos sintomas que estão presentes no luto, como o desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, inibição de atividades, na melancolia há uma diminuição da auto-estima e empobrecimento do ego em grande escala. Evidencia-se no melancólico a culpa e a punição, ou seja, ele se auto-recrimina, se auto-envilece, o que significa dizer que se degrada. No luto o mundo torna-se vazio e na melancolia é o ego que se torna vazio. Outro filme entre tantos que poderia citar aqui é “PS: Eu Te Amo”, onde uma jovem plenamente realizada na carreira e na vida afetiva casa-se com seu grande amor que inesperadamente morre. Antes de morrer deixa para ela algumas cartas com mensagens surpreendentes terminando todas com “P.S Eu Te Amo”, sua mãe e suas amigas preocupam-se porque as cartas a mantém presa ao passado, mas na verdade as cartas a ajudam. O filme evidencia bem o estado de luto comum nesse caso, diferentemente de “Reine Sobre Mim” onde o luto de Charlie manifesta outros aspectos como disse antes, um luto patológico. Para Freud, o melancólico perde o amor próprio e tem razões suficientes para que isso ocorra, a perda do objeto, que o melancólico aponta como tendo sido uma perda relativa ao seu próprio ego. Diz ainda que na auto-avaliação, sua maior preocupação não é com o corpo ou sua infelicidade diante dos outros, mas o medo da pobreza, o melancólico não se envergonha nem se oculta porque tudo que dizem de deselegante sobre ele, refere-se à outra pessoa que ele ama ou deveria amar. Ao invés de demonstrar inferioridade e submissão tornam-se pessoas importunas, evidenciando propositalmente que são injustiçadas e desconsideradas. Evidencia o desapontamento proveniente da pessoa amada, a quem foi realizada a escolha objetal, ou seja, a ligação da libido a uma pessoa. A partir desta desconsideração sofrida, a catexia objetal (a busca do objeto) foi liquidada, a libido não foi deslocada para outro objeto e sim foi retirada para o ego. Assim pode ser estabelecida uma identificação do ego com o objeto que foi abandonado. Pode-se dizer que a sombra do objeto caiu sobre o ego e assim este pode ser julgado como se fosse o objeto abandonado. Daí, “Uma perda objetal se transformou numa perda do ego, e o conflito entre o ego e a pessoa amada, numa separação entre a atividade crítica do ego enquanto alterado pela identificação” . Para Freud, a melancolia é a forma patológica do luto, neste o sujeito consegue desligar-se progressivamente do objeto perdido, na melancolia ao contrário, ele se intitula culpado pela morte da pessoa perdida, identificando de tal maneira com ela que sente os mesmos sofrimentos que imagina que o morto tenha sofrido. Também observou que por ser o luto extremamente doloroso, a pessoa enlutada deve tentar minimizá-la ou evitá-la por completo, daí a importância de que menciona no texto, da família e dos amigos. Segundo Freud, mania em nada difere do conteúdo da melancolia, como se ambos lutassem contra o mesmo complexo. Na melancolia o ego sucumbiria ao mesmo e na mania já o teria superado resultando disso um estado de alegria por alívio, de economia de energia. Neste último caso a libido fora liberada para novas catexias objetais, Freud situa a melancolia como uma afecção narcísica. Concluindo, Freud em sua analogia entre luto e melancolia, destaca que no primeiro perdeu-se o objeto amado e no segundo, houve a perda do eu. Na melancolia o sujeito é invadido pelo outro, pela dor, a perda do objeto do eu. “No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego”. Segundo Freud o sujeito com potencialidade melancólica identifica-se com o objeto perdido, fantasiosamente para evitar a perda, tornando-se estranho para si mesmo. No luto simples não há uma condição patológica e é superado após um determinado tempo, na melancolia o objeto pode ser real ou não, há condição patológica e só é superado se o melancólico for tratado, surge na consciência do melancólico o ódio em forma de culpa e auto-repreensão, no estado de melancolia o eu se divide. Uma parte se volta contra a outra condenando pela perda ou pela incapacidade de viver sem aquilo que se perdeu, se identificando com aquilo que se perdeu. O melancólico vive aquilo que se perdeu de uma forma narcisista, onde só existe pra ele, como a história grega de Narciso que adorava a si mesmo e morreu adorando seu próprio rosto. O sentido do narcisismo está relacionado à noção de identificação narcisista que corresponde ao processo psíquico do qual os investimentos objetais são abandonados e substituídos por identificações. A afecção melancólica como a perda de um objeto de amor conduz a libido, retirada dos objetos, e se desloca para o próprio ego do indivíduo sendo utilizada para o estabelecimento de uma identificação do ego com o objeto perdido. Freud investiga luto e melancolia ressaltando o aspecto natural do primeiro e o aspecto complexo do segundo e ao final ele supõe um esquema funcional que explicaria a melancolia como depreciação de si, insônia, ausência de apetite, falta de vontade de viver entre outros aspectos. Na tentativa de uma dedução do seu mecanismo ele diz, em resumo, que o principal que está em jogo na melancolia parece ser o fato de que o investimento do objeto é substituído por uma identificação. Aproxima o luto normal do luto melancólico, como já foi mencionado anteriormente, faz algumas comparações no luto e melancolia evidenciando na segunda a perturbação da auto-estima que na primeira é ausente na segunda, ou seja, a melancolia, à perda do objeto se mostra muito grave e ameaçadora para o eu. A diferença entre a melancolia e o luto se marca principalmente pelo fato de, no primeiro caso, a dependência do homem em relação a esse objeto se mostra mais profunda, a ponto de tornar-se patológico. Referências bibliográficas: COMBINATO, Denise Stefanoni; QUEIROZ, Marcos de Souza. Morte: uma visão psicossocial. Estu.psicol. (Natal), Natal, v.11, n.2, Aug.2006. DEL PORTO, José Alberto. Conceito e diagnóstico. Ver. Bras. Psiquiatr. São Paulo, 1999. FREUD, Sigmund.(1917[1915]). Luto e melancolia. In: FREUD, Sigmund. Obras Completas. V.14. Rio de Janeiro: imago Editora, 1969.

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